domingo, 12 de outubro de 2014

Alô nacionalistas, fiquem longe de Michiko to Hatchin!






















Ministério da saúde adverte: assistir Michiko to Hatchin pode trazer riscos, consulte um médico, leia à bula!


Eis que surge uma morena bastante bronzeada e sensual em uma moto estilosa dos anos 70. Quem é ela? Bem, isso você descobre quando a vê fugindo da prisão pela quarta vez. Ela é tão esperta que seu sobrenome é Malandro. Com uma personalidade bastante forte, Michiko quer encontrar um homem que marcou a sua vida no passado, mas pra isso, acaba resgatando Hatchin, uma menina adotada que sofre todo tipo de tortura na casa dos seus pais adotivos. Mas não pense que é por dó não, Michiko promete proteger Hatchin, por ser filha desse homem que ainda ama, Hiroshi Morenos. Ambos, partem para uma jornada na esperança de encontrá-lo.

Com ajuda do Estúdio Manglobe (Eureka Seven, Samurai Champloo, Ergo Proxy), com o design do Hiroshi Shimizu (Ghost in the Shell: Stand Alone Complex 2nd GIG, Kemonozume) e com a direção da até então inexperiente Sayo Yamamoto - que mais tarde em 2012 dirigiria mais uma série só dela: Lupin III: The Woman Called Fujiko Mine - Michiko to Hatchin constrói o seu mundo fictício parecido com o nosso: o Brasil. É fato que em nenhum momento o anime se refere ao nosso país, mas os indícios não mentem de onde vem a inspiração; tanto na trilha sonora, - já que teve a participação do brasileiro Alexandre Kassin, e do grupo carioca X + 12 - como também nas mais variadas cidades onde passam as protagonistas. Não é atoa que a diretora Saya Yamato veio dar uma bisbilhotada em algumas cidades brasileiras em 2007, incluindo Rio de Janeiro, Recife e Olinda. E o sacrifício foi válido, doa a quem doer, a história contada possui muitas verdades sobre o Brasil, mesmo que essa verdade não seja tão verdade assim. Afinal, só quem vive aqui sabe como é. 

Não é nada fácil, mas também, pera lá que não é bem assim.


Eu seria a pessoa mais mentirosa do planeta, se dissesse que não lembrei de Cowboy Bebop quando fitei os olhos na abertura - e que por sinal é energizante. As cores refletem o quanto o ambiente é infestado por sentimentos de todas as espécies,  e de pessoas de todas as raças. Tanto é que o cabelo das duas mudam de cor, assim como tudo em sua volta.  Primeiramente, a abertura dá o seu salto de um ponto muito interessante, e termina num ponto que diz muito sobre o contexto geral da história. Passando no meio de um mar alaranjado, logo em seguida, o foco da câmera muda de posição, parecendo assim que as duas estão andando de moto em cima da água, que por sinal muda de cor novamente, passando a ser num tom verde claro, que vai ficando mais forte conforme a cena vai passando. Como se estivessem passando por cima de tudo, por mais que pareça impossível - o que de fato é. Quem viu a série sabe que em muitos momentos, Michiko e Hatchin ignoram a morte várias vezes, já que saltar em cima de uma laje numa moto à mil por hora, tecnicamente seria impossível. Isso sem contar todas as vezes em que vão de encontro ao um tiroteio, e por injusta causa, nenhum dano acontece à elas. Sim, como se elas fossem feitas de borracha, ou então, fossem transparentes. Em vários momentos, eu confesso que fiquei um pouco puta com isso. Porém, depois me acostumei, e entrei na vibe. 

Voltando á falar da abertura, o que se sucede é nada mais do que os clichês que o mundo enxerga que o Brasil seja, o que de certa forma é. Mulheres sensuais bronzeadas, favelas, polícia correndo em seus fuscas, e muita, mas muitas cores fortes, que eu acredito que seja pra demonstrar um lugar quente (?). Daí você me pergunta '' ta e daí, por que te lembrou Cowboy Bebop?''. Bem, o que me lembrou não foram as cores, ou a correria em que aparece cada elemento ao longo da série, mas sim o clima (talvez o jazz tenha influenciado um pouco, mas não acredito que esse seja o motivo), por causa do ar eletrizante. Revigora e empolga. Curioso é que as duas vão parar no final da abertura em lugar nenhum. Ali mesmo na estrada deserta, coberta de um rosa escuro, e um céu roxo com uma lua, adivinha de que cor? Sim, rosa escuro, a mesma cor da estrada e do deserto em volta, simbolizando assim, quem sabe, o ponto de chegada das protagonistas. 






E falando em protagonistas, bem, nós já vimos um pouco delas em algum lugar .. Hmmmm, aonde mesmo?? aaahhh, em Cowboy Bebop é claro. Não vai me dizer que a Hatchin não lembra a Ed? E que a Michiko não parece uma fusão da Faye com o Spike? É, talvez eu esteja delirando, porém, os fatos me dizem o contrário. De qualquer forma, eu gosto da personalidade das duas, talvez não por me fazer se sentir familiarizada com essa característica forte, mas por saber que as duas se completam. Assim como diz na canção no finalzinho do encerramento '' Eu sempre estive procurando por você, eu quero te abraçar, minha melhor amiga''. Dessa forma, resumo a relação em que as duas acabam tendo. Sei que parece difícil acreditar, já que Michiko dá uns tapas na Hatchin por ''qualquer'' motivo, e fora os '' eu te odeio'' que Hatchin diz várias vezes para Michiko, mas acredite; a relação das duas são sim de duas amigas. E acho que o final deixa isso bem claro.

Já os personagens secundários, eu não posso tirar tantos elogios assim pra eles, mesmo entendendo a importância de cada um ali na história. Não acho que seja por falta de carisma, mas sim falta do que acrescentar. Senti necessidade de um ''quê'' à mais. Começando pelo Hiroshi Morenos (amor de Michiko e pai de Hatchin), personagem desinteressante, que seria facilmente descartado na história, se não fosse pelo motivo único de ser ''importante'', pra que a relação entre Michiko e Hatchin crescesse. Fui enganada ao achar que o final poderia mudar essa minha visão dele, mas o que fez foi justamente o contrário. Hiroshi foi uma peça chave na história, no entanto, não fez mais do que sua obrigação. Resumindo: foi um personagem escada. 

Já a Atsuko Jackson (a policial que conviveu com Michiko no orfanato), é a personagem que mais fica em cima do muro em relação à custódia de Michiko. Noutra hora ela tá boazinha e em outras encorpora a vilã da série. Até certo ponto até dá pra tentar compreender tal mistura de comportamento, entretanto, não acredito que seja motivo convincente pra apontar o dedo e dizer: ''Você é foda!''. Embora tenha carisma, e assim como o Hiroshi, ajude o enredo à engatinhar, Atsuko é uma personagem confusa, que não sabe bem o seu papel ali na história. Por outro lado, eu gosto do que ela representa para as personagens, bem como o sua aparência de cabelo pixaim branco. Satoshi Batista, o amigo de infância do Hiroshi e chefe do controle do crime ''Monstro Preto'' - que também é outro personagem secundário - é um cara que ganha confiança facilmente (mesmo isso soando irônico para um bandido) e consegue deixar bem registrado sua marca na história. Com um jeitão que lembra muito o Zé Pequeno do filme ''Cidade de Deus'', Satoshi Batista levantou questões complexas durante sua estádia no anime, já que o seu desfecho provoca indignação, e ao mesmo tempo alívio. É igual quando você vê no noticiário à morte de um traficante: dá uma certa sensação de justiça, mas ao mesmo tempo de pena. 

Quadradinho de oito? AHEUAHEHAUE






















Policiais assassinos, traficantes valentões, crianças abandonadas à própria sorte, malandros da pior espécie. Sendo brasileira, eu amei toda essa conjunção de partituras na série, mesmo que tenha me causado um certo sentimento de ofensa - e olha que eu não sou patriota e nem nacionalista. Talvez esse baque tenha acontecido porque a verdade machuca. Ou porque o próprio Japão (o país que suponho, tem boa visão do Brasil) enxerga a realidade que escondemos embaixo do tapete. Daí eu penso ''Se o Japão enxerga isso de nós, imagine o que pensa os outros estrangeiros?''. Então cheguei na conclusão de que: quem é patriota não pode ver Michiko to Hatchin, do contrário teria um ataque cardíaco. Pelo simples motivo de que a série é dose dupla de sinceridade, isso causaria uma certa revolta em quem tem uma paixão avassaladora por essa terrinha de ninguém.  Eu digo ''dose dupla'' porque o anime só mostra o lado negativo. Mesmo que a série não diga com todas as letras de que o ambiente se trata do Brasil, nota-se que o único país semelhante que tem questões urbanistas mal resolvidas, somos nós. Não somos os únicos é verdade, mas as referências apontam no mapa de onde vem a inspiração. Portanto, é uma indireta. Uma realidade mais distorcida do que já é de fato por natureza. Dessa forma, temos em vista uma realidade coesa, incrementada com uma ficção-adivinhada, que transforma assim a narrativa num balaio de gato bastante confrontador, tanto pelo uso visual da violência, tanto das éticas morais.    

Eu gosto disso. Como se não bastasse a ideia por si só já soar sensacional, Michiko to Hatchin cumpre bem a sua proposta e nenhum momento a sua atmosfera se torna duvidosa. O ambiente é tão bem pensado que trava qualquer furo no roteiro.  

Porém, antes de você já fechar essa janela e desistir de assistir ao anime pelos motivos que dei acima de que ''nacionalistas devem ficar longe da série'',  acho interessante frisar aqui também que, muitas vezes pensamos que os termos ''nacionalismo'' e ''patriotismo'' podem ter o mesmo significado, o que de fato não é, mesmo que de certa forma se refira a mesma coisa. O patriota por exemplo é aquele que ama o seu país, mas que trabalha para o seu bem, busca compreendê-lo e defendê-lo contra os inimigos externos e internos. Já o nacionalista é aquele que diz: ''O meu país é melhor que o seu'',"Eles odeiam o meu país, porque é o melhor ", "Nada abala o meu país porque somos grandes". É importante refletirmos sobre isso. Hoje, patriotismo passou a significar exaltação cega, incondicional. Simplesmente gritar "sou brasileiro , com muito orgulho e com muito amor" sem ter a vontade e a coragem de desafiar as políticas governamentais (independentemente de percepção popular), absurdos sociais, corrupção ... Isso não é patriotismo. A repulsa ao errado, ao ignóbil, ao desmando, tudo isso deve fazer parte da ordem cotidiana, do hábito do patriota. Ele não se cala, ele rejeita e resiste. Patriotas verdadeiros lutam contra aqueles que levam a comunidade à indiferença política, à corrupção dos valores republicanos. Muitas vezes, nacionalistas são aqueles que preferem o caminho de menor resistência e pensam que, no final, tudo dá certo porque ''Deus é brasileiro, somos o país do futebol e não temos terremoto''.

Portanto, se você faz parte desse time, vá jogar vídeo-game, ler um livro, porque você não vai gostar de Michiko to Hatchin. Além de se sentir um lixo, sua auto-estima vai ir pro brejo. Mas, se você for um patriota, pode ir fundo, afinal a série traz muitas questões repulsivas que valem a pena ser refletidas. (olha só quase rimou lol)

É isso aí Hatchim, faz como eu te ensinei!

















Essa é outra que aprendeu os paranauê comigo, cof cof U.U



Por fim, devo dizer mais algumas palavrinhas. Michiko to Hatchin é aquela série que enche os olhos. Tanto pela abordagem do tema, como pela maneira individual como cada personagem se expressa. A arte é encantadora, e os cenários são perfeitamente detalhados. A trilha sonora dá todo aquele charme que a série precisa - não é atoa que tem um dedo do Shinichiro Watanabe (poco puxa-saco né). No entanto, eu esperava mais do final. Não houve surpresas, nem um aprofundamento naquilo que era tão aguardado. A história se desenrolou bem no começo, e no meio, mas o fim foi totalmente corrido. Senti falta de mais diálogos significativos, como estava sendo mostrado até então. Aquele corte de tempo foi totalmente sem cabimento. Uma hora avançava pro futuro, na outra retrocedia ao passado, depois voltava de novo e vice-versa, arghhh. Esperei uns quatro episódios de perseguição intensa com a polícia, pra os ''finalmente'' acontecer na metade do episódio. E de forma toda ''vapt vupt''. Foi um pouco dentro do óbvio, faltou química com os outros episódios. No entanto, acredito que isso não compromete à história como um todo. Deu pra entender, que o mais valioso de tudo, foi a intimidade que Michiko e Hatchin tiveram no meio de tanto caos. Uma mistura de amigas, irmãs, mãe e filha. A relação que as duas tiveram uma com a outra foi extremamente excepcional. 

Recomendo o anime, mas se for nacionalista assista por sua conta e risco. Mas cuidado ter um AVC por causa da tamanha dose de adrenalina. Ta avisado. Beijo, Tchau!








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