sábado, 25 de outubro de 2014

Zankyou no Terror e a falsa aliança




Pra não dizer que eu não falei das flores. Ou o melhor: das bombas.


Pegue a direção do Watanabe, coloque no estúdio Mappa, misture a trilha sonora da Kanno, e ponhe no bloco NoitaminA. Dá uma olhada no histórico de ambos os envolvidos, e veja sem pretensão. Não espere um novo Samurai Champloo, ou nenhum Space Dandy. Isso tudo já é meio caminho andado pra você poder simpatizar com a série. 

Com um clima que lembra muito Paranoia Agent, Zankyou no Terror segue a mesma risca da série do Satoshi Kon; o suspense investigativo. Embora as duas sejam especificamente distintas, o ar de submissão ao passado aproxima as duas no mesmo foco. No mesmo emblema, porém colocadas em situações completamente diferentes. Se lá em Paranoia Agent o ''buraco é mais embaixo'', em Zankyou a coisa vai mais fundo ainda. Tão fundo, que é capaz de embaralhar a mente de qualquer pessoa que vá assistindo a série bem intencionada. Já querendo gostar. E a culpa disso não é do fanboysismo, mas sim do respeito que temos com essas pessoas que fizeram ótimos trabalhos no passado. Repare que eu digo ''pessoas'' no plural, porque nenhum anime é feito de uma só pessoa. Podem sim partir de uma só cabeça, porém, pra dar vida a imaginação desse mente, é preciso de toda uma equipe. E de preferência, estruturada. Bom ... de roteiro pobre, trilha sonora fraca, e animação meia boca, é que Zankyou no Terror não ia sofrer. E de fato não sofreu. Então, qual é o motivo do fracasso de vendas? Foi a história que não colou nos otakus? foi a falta de carisma dos personagens? O que foi exatamente que deu errado num anime que tinha tudo pra dar certo? Talvez seja esse o maior enigma em Zankyou no Terror.

De qualquer forma, esse texto não é pra tentar adivinhar o por que da falta de audiência, mas sim tentar criar uma linha de raciocínio que nos faça entender se isso foi injusto. E peço que ao termino do post, você reflita novamente sobre a série. Minha intenção não é, e nunca será, fazer você concordar comigo, mas sim levar você a pensar no que viu. Isso pra mim já basta, e me deixa imensamente feliz e satisfeita.   





















Como eu ia dizendo, Zankyou no Terror tem um clima muito parecido com o Paranoia Agent. É evidente que o titio Watanabe teve essa série como ponto de partida pra criar sua história. Não tenho dúvidas disso. O que eu não acho ruim. Muito pelo contrário. Mas, talvez ele tenha se atrapalhado na hora de se inspirar nos elementos. Sabe quando você coloca fermento de mais no pão? ou quando falta um pouco mais de tempero no arroz? Pois é. De contrapartida, a história principal de Zankyou soa muito atraente, e de fato, me parece algo convincente. Isso se for comparar com outras histórias de suspense investigativo. Como em Paranoia Agent por exemplo, onde temos um garoto com bastão de baseball, que sem nenhum motivo aparente, sai por aí atacando as pessoas na cabeça. Como pode perceber, é simples. No entanto, é dessa simplicidade que sai todo o drama. E a medida que os episódios avançam, sua mente cria dois vereditos: ou ela fica cada vez mais imergida, ou ela fica cada vez mais confusa. E é aí é que ta o ponto X. É uma pena que Zankyou no Terror tenha me levado pra segunda opção. 

A história principal é bastante simples, e o desenrolar é bastante detalhado - o que é o destino certo para uma série deste gênero. A tema central se passa no Japão, e começa nos contando de um roubo. Mas não é um roubo qualquer. Se trata de um plutônio - um metal de cor prateada-branca, radioativo, frágil e muito denso. Plutônio é o maior elemento atômico dentre os primordiais, e é encontrado em poucas quantidades junto a minérios de urânio, sendo formado naturalmente por capturas neutrônicas de átomos. Amplamente utilizado em armas nucleares. A primeira arma nuclear detonada no mundo foi em 1945 nos EUA, Experiência Trinity, usava uma carga de plutônio em seu núcleo, assim como o Fat Man, arma nuclear lançada sobre Nagasaki. Também é utilizado em reatores nucleares civis e gerador termoelétrico de radioisótopos em sondas espaciais. E em Zankyou no Terror, é recheado de referências a ataques como estes. Enfim. Antes que você pense ''nossa, aonde que essa história tem de simples?'' Calma lá, que eu não cheguei na parte mais complicada.  Os criminosos deixam a mensagem ''Von'' na cena do crime, em tinta vermelha.  Seis meses após o evento, um vídeo misterioso é postado na mídia social. Referindo-se a si mesmos como Sphinx 1 e 2. Ambos estão mascarados e anunciam que uma bomba vai explodir num determinado local. O caso chama atenção do detetive Shibazaki. Nine e Twelve - assim como são chamados - têm suas vidas entrelaçadas com uma garota chamada Lisa Mishima, que por determinada razão acaba virando cúmplice dos dois. 
























Eu não posso negar: o primeiro episódio é fantástico. Zankyou no Terror de inicio parece e soa grande. O fluxo da narrativa é suave e urgente ao mesmo tempo. Tal como acontece com muitas séries do Watanabe, é um daqueles episódios que você sente como se você pudesse usar como material de treinamento para uma classe de nível pós-graduação para produtores de anime. Os efeitos visuais são soberbos, e o clima é contagioso. Se você ainda não assistiu Zankyou no Terror, esteja preparado para uma série de quebra-cabeças. Sim, parecido com os do Death Note (2006), só que numa roupagem mais realista. A série também faz uso intenso de palavras e mitologia, envolvendo agentes policiais e funcionários do governo. Mergulhado num clima totalmente misterioso, Zankou no Terror não tem medo de explorar o ambiente num tom obscuro, deixando assim, tudo ainda mais instigante. 

Se tem uma palavra que resume grande parte dos episódios, sem dúvida, é a melancolia. Os personagens esbanjam laços de solidão, o que para alguns, isso pode soar chato e desinteressante. No meu caso, isso refletiu em um aspecto altamente positivo para a série, porque vi diferentes formas de desamparo. Assim como em Nine e Twelve, Lisa entra na história pra desestruturar o emocional dois dois de um jeito completamente oposto. No começo, não me simpatizei por ela; me parecia uma personagem fraca, escada, e sem proposito nenhum. No entanto, conforme os episódios vão passando, cada vez mais me fascinava pela sua beleza interior, e o desfecho foi bastante proporcional à tudo aquilo que ela queria dizer ali. Shibazaki, é outro personagem que apresenta um tipo diferente de carência, embora na realidade ele não seja um solitário, já que tem uma filha, entretanto, o seu trabalho diário com investigações o transformou numa pessoa distante e fria. Já a Five .... bem, deixa pra lá. Se alguém entendeu o propósito dela ali, por favor me explica nos comentários, porque eu estou boiando até agora.























Olha, eu não sei vocês, mas, eu gostei muito dos episódios em formato de jogo de xadrez. Zankou no Terror me foi uma experiência meditativa. A mistura de efeitos sonoros, falta de diálogos, e as cores da animação no último episódio foram essenciais pra que chegasse nessa conclusão. Evidentemente, Watanabe quis repetir a atmosfera visual do episódio 05 de Cowboy Bebop '' Ballad of Fallen Angels''. O desfecho da história me foi inesperada, intrigante, e deixou alguns pontos do roteiro meio que confusos e sem explicação. A forte conclusão empurra o conceito geral da série em um trabalho bonito, porém, desorganizado. A ideia é muito boa, e mesmo aqueles episódios em que não existe muita ação, ainda sim, a série sabe empolgar com alguns diálogos e pequenas situações inesperadas, me deixando sempre em alerta. Porém, isso não chega a ser motivo suficiente pra tirar Zankyou no Terror da zona de desconfiança acerca da sua originalidade. 

Começando pelos personagens. Mesmo que alguns traços de solidão me façam favorável à compreendê-los, e digamos até, admirá-los em sua totalidade, não acho que isso seja o suficiente pra que se crie um elo entre expectador e protagonistas. É bonito o que cada um tenta passar na história, mesmo que de forma confusa, mesmo assim Zankyou no Terror fica nos devendo uma aliança. Um comprometimento. Uma relação de afeição. De afinidade. Bom .. ainda bem que tinha Lisa e Shibazaki na história, se não fosse por eles, isso ia se tornar um problema grave. 

Deixando essas questões de lado, Zankyou no Terror é estritamente elegante. O ritmo lento já é norma do Studio Mappa (Tokyo Ghoul, Kids on the Slope), e de maneira nenhuma restringe o mérito de Zankyou ser sofisticado. Os movimentos de cada cena têm um toque de dedicação por parte dos realizadores, a tal ponto, que chega a ser excelente. As sequências envolvendo explosões e movimento de veículo (especialmente  os episódios 01 e 04, bem como o 11) são maravilhosos. E o mesmo digo dos fundos e efeitos de iluminação dados para cada momento que a série pedia. Isso sem esquecer a sequência da abertura, tal como a música. As canções em inglês, que também são inseridas em alguns episódios foram cantadas lindamente contribuindo assim para o clima dark. Yoko Kanno fornece também boas pinceladas semelhantes ao seu trabalho em Darker than Black (2007) obra de Tensai Okamura, e de forma alguma faz feio. 

Zankyou no Terror é uma obra agradável, mas não perfeita. Alguns elementos da história e personagens são questionáveis, mas o clima visual, trilha sonora e a interação entre eles, faz dar um sentido maior para o contexto geral. O mistério e o suspense estão tão primorosas, que qualquer adorador do gênero pode desfrutar da série sem maiores problemas.  E se você for como eu, que gosta de se apegar aos personagens e que gosta de apreciar uma história inteligente sem se sentir burra, não se preocupe, de vez em quando, um casamento de mentirinha é gostoso. Mas aprecie com moderação. 
























Sei que é repetitivo maaasss .... se você ainda não curtiu a página da Nave Bebop no Facebook, e ainda não está seguindo no Twitter, essa é a hora! Faça uma criança feliz ;)


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