quinta-feira, 14 de maio de 2015

Pluto (2003) - Os Robôs Também Sabem Odiar





















Imagine que louco você ler um mangá de um autor que você gosta muito, que é na verdade, baseado num mangá clássico do DEUS Osamu Tezuka? Pois é. Agora acrescente tudo isso numa versão de suspense policial com sci-fi. Meus queridos, mais motivos para surtar não há. Devo confessar que meus ovários explodiram. 

[Atenção: texto escrito por uma recém desequilibrada emocionalmente, devido às altas doses de fodacidade do mangá. Queria escrever tudo em caps lock, mas minha consciência me acusa à ter pavor do ridículo. Então, estejam avisados que esse texto é escrito com o coração de uma fangirl, mas principalmente, por alguém que não deixa de deixar nítido o porque dos seus surtos. ]  

A versão Naoki Urasawa para o mangá do Osamu Tezuka ''Astro Boy'', é sem dúvida, algo que deveria ser invejado por muitos mangakás. Isso porque, dar uma cara nova à um clássico, é uma missão suicida, se for parar pra pensar. É preciso saber interpretar. É preciso conhecer a obra em todas as suas entrelinhas, e ousar em deixar aquilo adaptado ao seu mundo o mais perfeito possível, sem arrancar dela suas principais essências pelas quais são conhecidas. Naoki consegue recontar aquele universo com muita intimidade e respeito.

Pluto foi serializado em 2003-2009 com capítulos coletados em oito volumes tankobon. A história recontada pelo Urasawa é estrelado pelo detetive Gesicht, um robô policial da Europol que tenta resolver o caso de assassinato que envolve a morte de robôs e humanos. Como eu disse, Pluto é baseado no mangá do Tezuka ''Astro Boy'', em especificamente no arco ''The Greatest Robot on Earth''. Takashi Nagasaki é o co-autor da série, Makoto Tesuka, o filho do Tezuka, supervisionou tudo, e o Tezuka Productions deu também uma mãozinha para o Urasawa.

O mangá recebeu vários prêmios, como o do Tezuka Osamu Cultural, o de excelência  no Japan Media Arts Festival e o Seiun Award 2010 de melhor Comic. Na França ele ganhou o prêmio intergeracional no Angoulême Comics Festival Internacional e o prêmio Prix Asie-ACBD na Japan Expo em 2011. A série foi licenciada e lançada em Inglês na América do Norte pela Viz Media, sob o nome de Pluto: Urasawa x Tezuka . Até 2010, mais de 8,5 milhões de volumes do mangá tinham sido vendido. 

Um sucesso merecido? SIM!  E eu vou tentar explicar o porquê, agora.


Comparação do Pluto (Naoki Urasawa) com o Astro Boy (Osamu Tezuka).










Sabe, lembrei agora de uma frase que a Agatha Christie disse uma vez em um de seus livros '' Quanto mais você descreve os personagens e tudo que os cerca de forma detalhada, mais aquela história vai se tornar real para você''. Pluto não é um mangá tão longo como Monster ou 20th Century Boys, mas ele possui uma riqueza em detalhes. Destalhes estes, que são convincentes. Mesmo se tratando de uma história de suspense investigativo com gotas de sci-fi, a narrativa é doce, porque ela nos brinda em cada capítulo com um aspecto novo sobre a história, sobre aquele universo. A impressão que se tem é que; o mangá não pará em momento algum pra tomar um pouco de ar, ele vive em constante rotação, nos presenteando sempre com uma novidade. E poxa vida, estamos falando de uma adaptação de um mangá do passado. Uma adaptação tem necessidade exclusivamente disso acima de qualquer coisa. Soar novo. Demonstrar ser amplo, vingativo, honrar suas referencias abrindo sobre ele um horizonte jamais visto. A sua cara e identidade precisa estar inseridas de forma que não vá de desencontro com o contexto original. É necessário existir um casamento, uma parceria. Caso contrário, as coisas não funcionam. Urasawa deposita em Pluto uma característica que é o seu ponto forte: a narrativa tempestuosa. Não que a história seja contada em uma linha de dramaticidade forçada, mas sim num ramo de necessidade, porque os pontos estão tão bem detalhados que aquela história fica cada vez mais real.     

Não é como se eu pegasse intimidade com os personagens de um capítulo para o outro, como se fosse dá água para o vinho. Veja bem, as coisas não são bem assim. Existe algo novo à ser contado sobre os personagens e aquele mundo em cada capítulo, por mais que a relação entre leitor e história já esteja bem estabelecida. Por isso que eu disse que existe uma narrativa tempestuosa,  porque cada vez que você lê um pouco mais, a intimidade com a obra cresce, deixando rastros de porquês. Há uma necessidade de continuar. De saber de que maneira a luz no fim do túnel irá aparecer.  Em que momento. Em que contexto.  


O universo construído em Pluto é uma coisa pra deixar qualquer fã de sci-fi babando. Não só pela arte ser totalmente digna de elogios, mas também pela história ser bonita em todos os seus aspectos. É impossível não se sentir sugado com a narrativa curiosa, como também é impossível não sentir seu coração esmagado, trajado de uma emoção nada comum. Pluto possui pontos fantasiosos como a convivência humana em meio aos robôs, mas ele também possui brechas que nos levam a acreditar em sua veracidade, como alusões a guera do Iraque, como em quando os Estados Unidos da Trácia invadiu a Pérsia depois de afirmar falsamente que tinham robôs de destruição em massa. No meio desses fleches históricos, Naoki recria um suspense fantasioso que tem um gostinho de verdade. O resultado não poderia ser outro: sabor de quero mais.

Uma outra coisa pra se ficar encantado, com certeza seria com os questionamentos impostos pelos personagens. Gostei muito da filosofia robótica , e, mais ainda das provocações levantadas sobre o que é ser um humano. Montblanc, Norse #2, Brando, Heracles, Epsilon, Gesicht e atom, são robôs tão humanos como eu e você. Cada um possui uma singularidade própria, que diferencia cada um dos demais. Os robôs não são idênticos. Esse é um dos pontos que explica o porque do conceito daquele universo me chamar tanta atenção. E por que não dizer, fascinante.      


Pluto foi um mangá especial. Foi como me recontar a primeira história que eu  li com 4 anos de idade. Através desse trabalho, fiz minha homenagem ao Tezuka. - Naoki Urasawa
























Recentemente vi uma notícia em que dizia que os cientistas encontraram uma substância que poderá apagar memórias ruins. Já imaginou que doideira? É engraçado, porque no mangá, Gesicht se vê em determinado momento com suas lembranças em confusão. Mas em todo momento, ele busca uma forma de recordar essas lembranças rabiscadas à lápis, mesmo que isso remetesse à alguma coisa ruim. Isso me faz pensar em como nossa humanidade atual está nos transformando em androids, enquanto em Pluto, Naoki explora de muitas formas um ponto de vista admirável: a de que os robôs buscam a todo momento manter sua ''humanidade''. Pra mim, essa é uma das maiores questões já levantadas em um universo de ficção científica. É um ponto que poder ser explorado em vários ângulos. Quanto mais eu me aprofundo nesse tema em determinada obra, mas o assunto me fascina. Pluto não fica devendo sobre isso. Alias, sobre nada. A atmosfera trabalhada realmente me dá a impressão de estar mergulhada num universo futurístico, onde humanos e robôs se misturam de tal forma, que ambas raças se perdem, e se confundem com facilidade. Não basta a história central ser muito boa, tanto em termos de criatividade, como também na abordagem aos gêneros, o clima flui de maneira rápida, sem nos deixar cair no sono. É um jogo de elementos que se confundem, se dispersam e se casam. 

Apenas um, dos muitos momentos que me chocaram T.T




























Os robôs conhecem o ódio, assim como conhecem o amor. Cada um dos personagens têm o seu jeito de encarar esses sentimentos que mantém uma singularidade. Mesmo Gesicht sendo o protagonista da história, eu senti que cada um dos envolvidos tem o seu momento de protagonismo ali. Isso trouxe uma fluidez sem igual, porque Pluto erguia várias lacunas em destaque, e quando uma não tinha forças o suficiente para prosseguir com o remo, a bola da vez era passada para outro. Assim sucessivamente. No final da soma, o conjunto de todos esses pontos contribuiu e muito para um desfecho decente. 

Há quem diga que Pluto é o melhor do Urasawa, eu porém, ainda não consegui deduzir qual é o meu favorito. Sinto que cada obra tem uma particularidade distinta, mas também sinto que todas elas tem algo em comum. Um fato que não dá pra se negar. Urasawa é o cara. Nunca me cansarei de agradecer todos os dias ao Deus Tezuka por ter popularizado o mangá. Mais do que isso. Por ter também contribuído com seus mangás maravilhosos. São histórias incríveis como essa, autores adoráveis como o Urasawa, que proporcionam à minha vida experiências extraordinárias. Pluto é uma delas.







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