domingo, 19 de julho de 2015

Karigurashi no Arrietti (2010) - O Instinto de Sobrevivência Humana












Aproveitando a onda do Homem-Formiga, vamos conversar sobre essa premissa na versão Ghibli?

Com a maior bilheteria do Japão em 2010, Karigurashi no Arrietti ou O Mundo dos Pequeninos como foi batizado no Brasil, agradou não só seu país de origem, como também todo o mundo afora, com sua delicadeza ao retratar numa premissa bobinha mais um tema que revela múltiplos significados. Dirigido pelo Hiromasa Yonebayashi (O mesmo do recente Vidas ao Vento), escrito pelo Hayao Miyazaki e Keiko Niwa no nosso amado estúdio Ghibli, o filme é baseado no romance de Mary Norton, The Borrowers publicado em 1952.  Na versão animada japonesa, existem algumas pequenas mudanças com a da original, como por exemplo o lugar onde ela está situada. A história se passa em Tóquio nos dias atuais, e não na Inglaterra de 1950, além de que; ela é centrada na garota Arrietty, de 14 anos, que vive com sua família embaixo do assoalho de uma velha casa. Eles são seres com cerca de 10 cm de altura, e vivem pegando coisas dos outros para sobreviver – tomando cuidado para não serem vistos pelos humanos e nem atacados por baratas e outros bichos do tipo.

Por mais que se trate de uma base bastante infantil, eu senti que esse filme é menos bobinho do que deveria. Acho essa coisa de pessoinhas vivenciando o mundo humano por outra perspectiva, algo muito criativo, no entanto, nunca pensei que isso pudesse render uma história completa de uma hora e meia de puro encantamento. Isso é o que muitos estão dizendo do Homem-Formiga por exemplo, grande parte das pessoas que entraram no cinema pra falar mal do filme da Marvel, estão saindo com um sorrisinho de satisfação. Eu mesma não me interesso por filmes de super-heróis, mas estou curiosa pra assisti-lo, mesmo sabendo que não é um filme que mudará minha vida. Como entretenimento barato - onde a única finalidade é a diversão - acho que a fórmula funciona. Karigurashi no Arrietti possui essa mesma vibe de descomprometimento, só que, estamos se tratando de um filme do estúdio Ghibli. Sempre existe uma coisinha ou outra que quer dizer algo à mais, que vai além do exibido. Ele consegue ser infantil sem ser infantil. Ou seja, possui apenas uma narrativa, mas o impacto em uma criança e o impacto em um adulto são distintos. Cada um capta do filme aquilo que convém. Alguns que querem apenas se divertir, com toda certeza vão conseguir isso no filme. Já outros que querem algo à mais, como encontrar pequenos fragmentos de significados, também sairá feliz ao refletir sobre ele. Foi o que aconteceu comigo, e eu irei dividir essa minha interpretação com você agora. Espero que goste compreenda. 


Karigurashi no Arrietti é um filme fraco comparado aos clássicos do estúdio Ghibli como Princesa Mononoke ou Nausicaa, mas ele é excelente como um filme isolado. Pode até parecer infantilzinho como o Ponyo, entretanto, ele tem mais detalhes para se interpretar como nenhum outro. O final é um grande exemplo disso. Pra mim, Karigurashi no Arrietti é um filme triste. Não tem nada de mágico como possa aparentar ter, na verdade ele é bastante humano. Uma das coisas que mais me agradou foi a narrativa que os produtores optaram para esse filme, parecia que as coisas estavam sob o controle o tempo todo, mas na verdade, tinha muitas informações sobre aquele universo sendo jorrada através dos personagens. Mesmo após o término do filme, eu ainda não sei direito como aquele mundo funciona, porém, são através das nuances que eles deixaram escapar nos detalhes, que me fazem criar na mente teorias e mais teorias sobre aquilo tudo. Assim como muitos filmes do Ghibli, neste também não existe grandes acontecimentos, somente nos instante finais é que eu senti alguma ameaça sendo apresentada, no mais, anteriormente o que vemos é só puro slice of life. É bacana, porque isso contribui para que exista um ar ainda mais realista e humano no filme, por mais que se trate de uma obra fantasiosa. 





















Atenção navegantes da Nave Bebop, possíveis spoilers à vista! Se você se incomoda com issopule para o final do texto! 

Não é que eu não goste dos personagens, mas eu achei eles muito antipáticos, principalmente no começo. Perceba que o filme demora revelar que o Sho - um dos protagonista -  é adoentado,  Arriety por outro lado - a jovem pequenina - nem sequer revela seus reais sentimentos. Senti que ela foi uma protagonista bastante controlada. O pai dela, diz logo no começo, ''você precisa aprender a se virar sozinha, já está virando adulta e tal tal tal'',  isso me deu a entender que Arriety tenta ser uma personagem forte, na medida do possível ela vai tentando madurecer, mas o que eu vi foi justamente fraqueza por parte dela. A única coisa que posso elogiar com a boca cheia é de que ela contou com a ajuda do Sho para resolver um problema grave, isso cria uma linguagem bastante direta, que quer dizer que ela deixou o passado, e acreditou no que o coração dela mandava naquele momento. Tipo ''foda-se o que meus pais dizem, vou fazer o que eu acho que é certo'' e ponto final. Somente nessa atitude eu pude perceber uma pessoa com personalidade forte, o resto estava muito morno ao meu ver. Ou seja, foi uma escolha tardia da Arrietty na série, e isso ajudou para que eu demorasse gostar dela no filme. Sho já é um personagem um pouco mais forte, a única coisa que me incomodou foi a hora em que escondia o que pensava da mesma maneira que Arriety, como por exemplo, quando a emprega conversa à mesa com a tia dele sobre  exterminar os humanos pequeninos.

Não me agrada a ideia de esconder seus sentimentos na frente dos outros para evitar confusão de ambos, no entanto, em compensação, gostei da relação que Arriety e Sho criaram aos poucos. Sim, a conclusão de ambos ficou com um gostinho de quero mais, só que eu gostei. Como eu disse antes, pra mim Karigurashi no Arrietti é um filme triste. E o final é ainda mais, por mais que não pareça por causa de ter terminado sem uma conclusão aparente. Ele não conta quais foram os rumos dos dois depois de tudo aquilo, se Arrietti conseguiu um lugar pra ficar, ou se  Sho saiu vivo da cirurgia, mas para mim, ambos tiveram finais trágicos. Sho diz claramente que as chances de sobrevivência são minímas, e depois que o filme dá closes na sua cara de cansado quando corre para ajudar a Arrietty à encontrar sua mãe, é uma evidência clara de que; se existisse alguma chance de viver, tudo estaria anulado porque ele ajudou Arrietty se arriscando em algo proibido para as condições do seu corpo. Foi aí que eu encontrei um motivo para gostar do Sho, ele preferiu fazer o que sentia vontade e morrer do que se aliar ao ódio gratuito e tirar à vida de pessoas inocentes, porque assim como eles, Sho também era inocente. Ele iria morrer por algo que não tinha culpa alguma, assim como Arriety e sua família. Pude ver aí que todas as pessoas são iguais. Mas algumas são egoístas demais para perceber essa igualdade, e acaba se achando um ser superior. Como era o caso da empregada do Sho, a vilã do filme.





















E aquele final hein? Bem, como eu disse, eu acho que ambos tiveram um fim trágico. Sho morre, Arrietty e sua família também porque embora ambos sejam de proporções de tamanho diferentes, eles possuem algo em comum: o instinto de sobrevivência. E seus destinos estavam traçados para a tragédia desde o inicio, por mais que lutassem por uma moradia diferente, ou então por alguma cirurgia avançada como era o caso do Sho. A empregada já estava velha, a mãe do Sho era ocupada demais para ele, os amigos estavam distantes por causa da condição de vida. Mais cedo ou mais tarde, todos iriam morrer mesmo, não é verdade? E o que fica depois da morte? Apenas o amor e a aceitação. Aceitar aquilo que é, pode ser uma tarefa muito difícil para alguns. E o que somos mesmos? Pois é, todos iguais. Todos lutamos para sobreviver, todos desejamos a felicidade. Mas alguns são egoístas demais, se acham no direito de ter a alegria só para eles. E isso pra mim é uma coisa muito triste. Por isso então, Karigurashi no Arrieti é melancólico, por mais que tenha um visual lindo e rico, do mato verde simbolizando esperança ou das flores coloridas anunciando coisas boas. Existe podridão dentro dos humanos, e isso estraga toda a beleza que existe no mundo.

Nem tudo é como a gente quer, eu realmente achei que a Arrieti fosse ficar com aquela casa de bonecas para ela e sua família no final. E eu acho que existe uma outra mensagem escondida aí. Quando a Arrietti e sua família consegue conquistar apenas um pedaço do desejado, como foi o caso da cozinha que o Sho dá de presente para ela, todos não sabem aproveitar isso, com medo de sobrevir uma coisa ruim em seguida. Às vezes conquistamos o que queremos, mas depois que passa, percebemos que ''éramos felizes e não sabíamos'', como diz o ditado. Isso se encaixa com o que eu estive defendendo esse tempo todo, de que; o egoísmo das pessoas estraga tudo. Causa trauma e desesperança em uns. 

Fim dos spoilers!



Por fim, acho Karigurashi no Arrietti um bom filme. É um grande tapa na cara pra quem está acostumado com os filmes animados americanos que têm grandes acontecimentos e finais felizes. É uma obra leve, com toque de humanidade nas pequenas entrelinhas. Tudo bem, que não tem personagens mega carismáticos e despojados de energia, mas existe força de vontade na busca pela sobrevivência. Não acho um filme pra se divertir, mas sim para refletir. Existem lacunas que ficarem sem um preenchimento de explicações, e isso cada um pode colocar a teoria que quiser. Não é uma coisa ruim. Pra mim, é algo inusitado para uma obra que possui uma base infantil.

Ah, e quanto à qualidade pode ficar tranquilo, é do estúdio Ghibli que estamos falando. Pode esperar um banho visual como sempre. Todos os ambientes são muito bem detalhados, e o caracter designer dos personagens estão dentro do padrão que estamos acostumados, e a trilha sonora é maravilhosa ♥. A responsável por isso é a francesa Celta Cécile Corbel, pessoa esta que trouxe o clima doce e agradável que o filme precisava. Não acho que será um filme que ficará entre os seus favoritos, mas com certeza é uma obra pra se encantar com as verdades nuas  e cruas.
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