quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Tenshi no Tamago / Angel's Egg [1985]






















É aquele filme que você não sabe bem quando começa. E quando termina, você quer um pouco mais.

Tenshi no Tamago ou Angel's Egg como preferir, não tem começo, meio e fim. Não apresenta os personagens na linguagem padrão, e muito menos se esforça para que gostemos deles. Não tem plot. Não tem o antes, e não tem o depois. Não possui tantos diálogos. Tem um ritmo desacelerado, mas também sabe trazer movimento quando precisa. A trilha sonora não é nem um pouco convidativa, pelo contrário: é assustadora. O designer do ambiente é confuso, não dá pra saber aonde estão situados. Qual é a era? qual é o contexto? Assim como os personagens cumprimentando-se com um gélido ''quem é você?'' eu fiquei me perguntando a mesma coisa. Do que se trata afinal, esse filme? Mas antes que eu pudesse desligar o pc e ir dormir, tive a sensação que aquilo era intencional. Essa esperança, foi o que me manteve acordada até o término. Tudo é um convite à interpretação. O que vemos durante o percurso, são mentiras. Pistas falsas, que se juntadas, não nos levarão à uma verdade absoluta. Por isso, é importante estar ciente que o pé na realidade não lhe trará uma experiência frutífera. Quando você se desligar do mundo lá fora e se conectar com a mente livre, certamente você será levado para outra dimensão. 

Mas, antes que alguém me entenda mal, não quis dizer que é pra assistir querendo gostar, mas sim querendo entender. Por mais que no fim das contas, essa obra se torne para você uma tortura sonífera, o que vale é tentar trazer aquele universo para o seu mundo. Deixe essas duas realidades se chocarem, sinta sua imaginação completar os porquês. Participe do filme e crie a linha de raciocínio que mais lhe convir no momento. Com certeza, a decepção poderá ser nula. 


A premissa básica em Tenshi no Tamago é o seguinte. Uma menininha de cabelos longos carrega por uma cidade desconhecida um ovo, que está constantemente escondido embaixo de seu vestido. Ela tenta protegê-lo de algum perigo que não nos é contado. Mais tarde, ela acaba se deparando com um homem moreno, carregando uma arma (ou seria uma espada?) nos ombros. Evidentemente, ela fica com medo, e foge de um possível contato com ele. Mais tarde eles acabam se encontrando novamente e o que acontece depois ...

Bem, o resto fica por conta da sua imaginação. Tudo o que eu disser além disso, poderá ser spoiler.
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Mamoru Oshii dirige este filme como se estivesse dando vida para uma pintura. Também é válido ressaltar que foi neste OVA que ele deu os primeiros passos no universo cyberpunk. É diferente de Ghost in The Shell, porém, dá pra perceber a construção de uma estética toda detalhada, coisa esta que estaria bem mais aprimorada mais tarde em 1995. A ficção científica por sua vez foi oficialmente trabalhada no OVA anterior à este, intitulada ''Dallos''. Mamoru Oshii também contou com a participação do artista popular Yoshitaka Amano. Os estúdios responsáveis ficaram à cargo do Deen e Tokuma Shoten.


Se tem alguma coisa que se destaca na primeira metade do filme, com certeza é o ambiente, assim como as cores. Como eu disse na minha sinopse mal feita; assim como não nos é contado o porque que a personagem carrega aquele ovo pra cima e pra baixo, também não nos é contado aonde ela, e o ''soldado'' estão. O lugar é escuro, raramente acontece da iluminação resplandecer, e quando acontece, é pra marcar a transição de cena para a outra, com um branco exagerado, tomando a tela por completo. Porém, isso é muito pouco comparado à escuridão imposta sobre cada cena, seja pra também puxar uma outra situação, como também para mergulhar os dois personagens desconhecidos em meio ao nada. O escuro prevalece. Começa e termina nele. Em cada beco aonde passam, existe sombras e mais sombras. O que se mistura nele, são cores que realça esse sentimento gótico imposta na obra, como o azul escuro, o cinza cintilante, e até mesmo o vermelho chamuscado em alguns poucos momentos. São tons que realçam o preto, e dão liberdade pra que ele predomine. 

Um outro ponto interessante para se destacar, é a roupa da menina. Sua capa escura reflete sua imersão ao nada e àquele ambiente, enquanto que seu vestido de cores fracas e neutras simboliza a sua personalidade ingênua e fraca. O olhar parado e triste dela revela um estado de espírito duvidoso, enquanto que o movimento de seu cabelo dá impressão de poder. Já o outro personagem, o ''soldado'', não possui uma capa preta igual a menina, mas sim uma azul que chega a ser cintilante em alguns ângulos, sempre acompanhado das sombras. Representando a calma, responsabilidade e tristeza, seu papel ali é de alguma forma, alertar a menina, e direcioná-la ao caminho certo. Como uma espécie de Deus, afinal sua espada (ou arma) em formato de cruz, traz ainda mais essa sensação de soberano. Também acho que a cor de pele deles, também dizem muito sobre suas funções ali. Visivelmente opostos, o branco pálido da menina está associado à pureza, enquanto que a do soldado retrata a confiança.    

Como pode notar, as cores são contrapartidas que interligam e constroem naturalmente essa parte de simbolismos no filme, bem como os diálogos e a trilha sonora.

Note a imensidão do lugar e a pequenez da personagem
Os sons por sua vez, possuem um papel de igual destaque na obra. É ridiculamente sensacional. É tão bom que assusta.De um silêncio absurdo, ao som do vento. De um piano triste à harpas delicadas. De vozes líricas ao som da água, assim como ao tanque de guerra e etc.  A trilha sonora poderia ser analisada separadamente, e por consequência, receber seu devido valor e apreciação do público como uma arte paralela. É uma completa viagem e imersão àquele universo. Gosto dessa sutileza e também do destaque que isso tem no filme. 

A interação dos personagens é algo que chama a tenção. Trazendo mais perguntas do que respostas, os dois trazem um balanço misterioso muito bom para aquilo que eles propõem. Há pessoas que acham essa relação distanciada muito monótona, e definitivamente é. Tudo é desinteressante e desprovida de agilidade e informações convincentes. A formula não é nem um pouco atrativa. Por isso, muitos podem cair no sono - foi que aconteceu na verdade, na época de seu lançamento: o fracasso de crítica e público, ou o melhor; soneca coletiva. Porém, o que torna isso bacana é justamente esse ar intrigador que eles formulam, parece que a qualquer momento algo vai ser revelado, mas esse momento nunca chega. Bom, pelo menos não da forma padrão e tradicional. Apesar dos diálogos serem curtos e ainda por cima, cheios de pausas, é interessante o desenrolar desse jogo de quebra cabeças, onde cada única frase pode significar um verdadeiro achado mais para frente. Eu gosto.









Atenção, spoilers à vista, pule para a última estrofe, caso você se incomode!

Sobre o significado da história .. bem, eu prefiro acreditar na teologia cristã, me parece que se encaixa mais com a razão. Porém, cada um pode interpretar de um jeito. Pra mim, Tenshi no Tamago se trata de um desenvolvimento espiritual. Além das metáforas e simbolismos que os cercam durante toda o percurso, como os soldados que caçam aos peixes gigantes denominados 'celacantos etéreos' - que dá a entender a busca por algo que nunca vão conseguir ter - existe a teoria do que poderia ter dentro do ovo, objeto principal este que acompanha a protagonista. Para muitos, significa a esperança que ela tem naquele mundo, para mim era a esperança que ela tinha em ter um anjo, ou um salvador que a pudesse proteger. O soldado/guerreiro, embora seja o que ela supostamente gostaria de ter, sempre foi um estranho para ela, até porque chega no final e ela ainda pergunta ''quem é você?''. A primeira frase que ele diz é ''guarde as coisas preciosas ou poderá perde-las''. Na primeira vez que a menina vê o homem, ela se afasta e se esconde, mas depois tenta 'procurá-lo' de novo mas não encontra. Ou seja, ela teve o contato com este salvador, mas perdeu-o de vista. O ovo é apenas uma representação material desse desejo que ela tinha. Por esse sonhado anjo.


E ainda falando do ovo da menina, o fato do homem ter quebrado revela esse desejo que ele tinha de que ela reconhecesse que aquilo no final das contas, era algo sem valor. A fé e a devoção nos bens materiais, é uma fé vazia. Quando ela vê diante dos seus olhos esse fato e reconhece isso, ela corre atrás dele, na busca de tentar se redimir, porém caí num buraco, e dentro dele, mergulha num pequeno dilúvio, o que acaba trazendo amadurecimento, visto que quando ela caí na água ela cresce. Depois quando mostra ela, numa espécie de estátua do olho gigante (representando o olho de Deus), dá a alusão de que ela alcançou o que queria. Não da forma como imaginava, mas conseguiu. Talvez isso seja uma ilusão, mas na minha cabeça faz muito sentido.                                                                                                   
















Bom, eu gostaria de falar mais, só que não quero me estender muito. Por fim, digo que Tenshi no Tamago não é fácil de ser digerido, mas quando você pegar o espírito da coisa, a experiencia vai soar mais agradável. É um filme inteiramente interpretativo, e reflexivo. Tem que saber lidar com esse tipo de história. Automaticamente requere um algo à mais. A total atenção de quem vê. O designer daquele mundo é algo encantador, bem como sua trilha sonora que é linda. Tenshi no Tamago deveria ser assistido só por isso. Agora, se você gosta de descascar grandes laranjas, vai por mim, esse filme pra você.

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