terça-feira, 10 de novembro de 2015

Kokuriko-Zaka Kara (2011) - É preciso conhecer o passado pra entender o futuro






















Gorö Miyazaki busca carona no trabalho do seu pai, e entrega um resultado mediano. Mas não se engane, o cara tem muito potencial.

Quando alguém me fala do Studio Ghibli, sempre me lembrarei de Meu Vizinho Totoro, Porco Rosso e Princesa Mononoke. Embora eu não considere meus preferidos do estúdio, foram nesses que Hayao Miyazaki despertou suas melhores qualidades desde então. Seja no lado meigo e doce, na guerra idealista, ou na conscientização ambiental, Miyazaki criou uma linguagem própria a partir desses filmes, que mais tarde, foram ''modernizados'' por ele mesmo, e também por outros colegas de estúdio como o Isao Takahata. É perfeitamente natural que certas qualidades consagradas sofram alterações ao longo do tempo, não importa se é pelo próprio inventor, ou admirador. Por mais que tente repetir a formula de algum jeito mirabolante, chega a ser impossível trazer a essência exata que foi uma vez utilizada. Faz parte do processo de amadurecimento, e da criação. Tudo é uma constante mudança.

O que Goro Miyazaki fez nesse filme, Kokurikozaka Kara, ou From Up on Poppy Hill (no Brasil recebeu o título de ''Da Colina Kokuriko'', que alias, é um nome ruim) foi nada mais e nada menos que replicar algumas essências criadas pelo trabalho de seu pai. Eu consegui ver um esforço tremendo para que o filme soasse ''Ghibli''. Claro que ele consegue sim replicar a delicadeza, seriedade, e valores culturais à serem debatidos, e nisso, não vejo mal algum, muito pelo contrário, é totalmente elogiável esse ponto, porém, é bem visível que a intenção é essa. Por trás de cada cena, dá pra perceber uma segunda intenção. E eu não gosto disso. De ser obrigada a estar conectada com o que está acontecendo por fora daquele mundo. De estar percebendo a movimentação das peças, do sentimento que ele quer que eu sinta. Isso cria uma impressão de que o Goro Miyazaki não sabe dar a sua versão sobre essas características; não tem uma identidade, existe só preocupação por trás do filme em ser digno de um Ghibli, e não há aquela entrega, aquele gozo ou aquela alma depositada. Nisso, sinto um pouco de pesar.

A história de Kokurikozaka Kara não é nem um pouco urgente. Existem pequenos conflitos ali, mas nada que faça algum coração acelerar. Situada no Japão de 1963, o filme segue a vida da jovem colegial Umi Matsuzaki, que vive numa pensão de Yokohama. Na escola, ela conhece o garoto Shun Kazama, um menino que luta pelos direitos do clube cultural de seu colégio, já que querem demoli-lo. Os dois passam a ficar cada vez mais amigos, e juntos irão achar um jeito de preservar esse clube.  
Baseado no mangá de Chizuru Takahashi e do Tetsuro Sayama, Kokurikozaka kara como mencionado antes, foi dirigido pelo filho mais velho de Hayao, Goro Miyazaki. Seu primeiro trabalho foi no filme Tales from Earthsea, e este portanto, é o seu segundo. Desde o começo, Goro sabia que não seria um filme bonito no final das contas, tendo em vista essa história com personagens com o olhar voltado para a guerra. A visão dessas pessoas sobre a Guerra da Coréia por exemplo -como é mostrada no filme através de pequenos flashbacks - pode ser algo chato para algumas pessoas, principalmente para crianças. No entanto, para os adultos que esperam uma abordagem leve de um tema tão sério, este filme é um prato cheio.

Antes de mais nada, não dá pra se negar que este filme é muito divertido. Porém, no sentido melodramático. Mesmo que ele pareça tão juvenil, a linguagem apresentada é uma coisa mais adulta e madura. O romance que nasce entre os personagens não é nenhum pouco padronizado pelos shoujos atuais em que vemos. Não é aquela coisa exagerada, ou não assumida. Criou-se assim, um casamento perfeito com a época em que a história é contada, já que ela se preocupa com a veracidade de um tempo, e não em agradar os jovens mostrando um romance já consumido e vivido por eles. O ponto alto da história, inclusive, SPOILERS À SEGUIR é quando, na metade do filme é revelado que os dois são irmãos. Nessa hora, deu pra sentir minha mente em pedaços, pois isso quebrou o sentimento que estava se criando em mim, de que eles ficariam juntos. O filme nos conta através disso, que o passado influencia muito no futuro. Não podemos simplesmente apagar o passado, pelo fato de que não temos como colocar outro no lugar. Um exemplo disso é a paternidade. É impossível apagar de onde viemos. A partir do momento em que os personagens reconhecem isso, ou pelo menos nos mostram o valor que isso acarreta, o fato de que eles querem preservar o clube cultural de sua escola, é uma representação digna de que precisamos conhecer o passado, pra entender o futuro, FIM DOS SPOILERS


Além de eu ter gostado muito da mensagem principal do filme, outra coisa pra se elogiar é o designer dos cenários. A caracterização da década apresentada, está simplesmente impecável. Os carros, as casas, os móveis, e até mesmo a iluminação da rua. Mesmo que os personagens não apresentem nenhum traço de originalidade em seu visual, ainda sim, ficou uma coisa bonita no final das contas. A fluidez dos movimentos, está maravilhosa, o que já era de se esperar de uma obra Ghibli. O que posso dizer o mesmo, da trilha sonora. O que eu não vi de originalidade no visual dos personagens, isso eu vi de sobra na trilha sonora de Kokurikozaka Kara. Achei bastante simpática, e agradável. 


Assim como a maioria dos filmes Ghibli, Kokuriko - Zaka Kara também tem uma protagonista forte, porém, não do jeito convencional e tradicional como Nausicaä ou Kiki. Como eu havia dito, este filme respeita muito a época em que a história é contada, e por conta disso, Umi Matsuzaki é grandiosa da sua maneira. Comportadamente ela irá guiar os rumos do enredo pelo seu lado observador e responsável, e em outros, apenas contará com a sorte de ser quem é. Portanto, Umi não se trata de uma personagem forte, na verdade, ela é tão humana, que chega a assustar pela quantidade de realismo contidos nela. Seus sentimentos acerca das situações são altamente sinceros, e nisso se percebe em cada diálogo trocado. Essa construção de personagem é delicada e esteticamente bonita, mas eu não sei se isso é o suficiente para se tornar em algo bom de se assistir. Por causa da narrativa estar ligada na perspectiva dela, o filme é morno, e consequentemente, não prender a atenção. Chega a ser uma coisa desinteressante. Não me envolve completamente. Fica uma coisa de difícil digestão. E nisso, não posso culpar o Goro totalmente, já que quem escreveu o roteiro do filme foi o próprio Miyazaki. Achei essa colaboração entre pai e filho uma coisa equivocada, pois como eu disse, faltou um pouco de identidade por parte do Gorö. Não há problema nenhum em contar uma história simples, mas o mínimo que se espera, é que seja mostrada de forma interessante e curiosa. O que eu acho que faltou no filme. 

Uma obra que é excelente nessa degustação light é Sussurros do Coração. Kokuriko-Zaka Kara ou Da Colina Kokuriko como assim preferir, pode não chegar perto dessa proeza, no entanto, é um bom retrato de época, com pitadas de um romance jovial bastante amargo (e isso não é uma crítica necessariamente negativa).Não está perfeito a direção que o Gorö Miyazaki deu pra esse filme, mas não está de maneira nenhuma horrível. Pelo contrário. Eu fico feliz que exista potencial nele, e tenho certeza, que ele encontrará o seu caminho. É só uma questão de tempo. 










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