sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Kaguya-hime no Monogatari (2013) é mais do que um banho visual





















Um pequeno texto sobre o filme do Ghibli escrito com o coração em lágrimas.

Quando falamos de estúdio Ghibli, não falamos apenas de Hayao Miyazaki. Falamos também de Isao Takahata. O cara que já trabalhou com diversas temáticas ao longo de sua carreira, desde histórias sobre guerras como o ''Grave of the Fireflies'', à aventuras ecológicas como ''Pom Poko''. Também já dirigiu comédias como o ''Meus Vizinhos os Yamadas'', dramas como ''Tumulo dos Vaga-lumes'' e o romântico Only Yesterday. Seu estilo é influenciado pelo neo-realismo italiano, e pelo New Wave Frances de 1960. Com isso, Isao Takahata se destaca com a dramaticidade realista e com a delicadeza ao mostrar situações simples, com tamanho louvor. Em ''O conto da princesa Kaguya'', Isao extrai do fantasioso, nuances verdadeiras, muitas vezes escondidas em nosso dia a dia. O que poderia ser só uma história infantil, se torna num verdadeiro achado para adultos. 

Devo confessar que assisti esta obra com os olhos sorrindo. Esqueçamos por um momento a história, trilha sonora, ou qualquer outro fator externo que compõe o filme. ''O conto da princesa Kaguya'' deveria ser assistido apenas pelo banho visual que ele nos dá a cada cena. Ponto. Não tem o que discutir. O traço rabiscado, as cores neutras e fracas, mostra a ingenuidade daquelas pessoas, e revela uma simplicidade maravilhosa. O filme segue se movendo como se tivesse dando vida a uma pintura de tela. No meio de tantas animações computadorizadas, cheias de CG e o caralho a quatro, surge este filme para dar um tapa na cara da sociedade. Mas não se engane: ele é muito mais do que um banho visual. E não pense que é por ser justamente tão bonito tecnicamente, que a história automaticamente também se tornou interessante. Calma lá! Analisemos por partes.

Não é só de Miyazaki que faz o estúdio Ghibli ser o que é. E não é só de clássicos que se constrói um legado. Este filme está aí para derrubar paradigmas, e principalmente: para nadar contra a maré - na medida do possível. É uma obra curiosa não só pela arte (que é indiscutivelmente linda) mas também pela história, bastante inusitada. 

Antes de mais nada, não dá pra falar da história sem antes, falar sobre o conto original, onde o filme fora inspirado. Surgido no século 10, o corte do bambu é uma das histórias mais velhas do folclore japonês. 

O plot básico, é bastante fantasioso e simbólico, ao meu ver. Certo dia, um camponês está trabalhando normalmente, quando de repente ele vê uma minuscula criança nascendo de dentro do tronco de um bambu. Com o passar das horas, essa criança irá crescendo como num passe de mágicas, e irá ser conhecida por esse camponês e esposa, como uma princesa. Os dois farão de tudo pra que ela consiga esse status na sociedade, porém, ela, a menina Kaguya, não será plenamente feliz com essa escolha de seus pais adotivos.

Como podem perceber, ele tem um quê de insano, como um quê de realidade. Como muitos filmes Ghibli ele mexe com a questão da natureza, e deixa claro desde o começo, que ela é a mãe de todas as coisas. Da natureza viemos, e para lá retornaremos. Mas ... como faz pra encontrar a felicidade num período tão curto? A sensação que ficou em mim, é de que Kaguya não conseguia encontrar essa resposta de jeito nenhum.





















''O conto da princesa Kaguya'' não é a primeira obra a se inspirar no conto do corte do bambu. Muitas outras anteriores, já fizeram questão disso. Ele recebeu diversas releituras em poemas, em livro chinês, mas sua primeira aparição na TV foi no Manga Nippon Mukashi Banashi, uma primeira adaptação de 10 minutos dirigida por Takao Kodama. O conto também serviu de inspiração no mangá Queen Millennia de Leiji Matsumoto. Postumamente, o mangá foi serializado com 42 episódios transmitido pela TV Fuji em 1981 a 1982.

Mangá de 5 volumes, levemente baseado no conto (informações no MAL)
Porém, não é só na tv e mangá que o conto foi adaptado, ele também serviu como base na música uma vez. Em 1988 o compositor japonês Maki Ishii convidou o coreógrafo tcheco Jiří Kylián para produzir um trabalho musical com o nome Princesa Kaguya, complementando com elementos do Ocidente com a cultura japonesa. 

Voltando a falar sobre animes e mangás, Kon Ichikawa também adaptou a história para as telas em 1987 intitulado Princess from the MoonE falando em lua, num filme de Sailor Moon de Naoko Taleuchi, existem elementos da história da Kaguya. Enfim gente. Existem muitas outras séries de sucesso que tiveram uma parcela de suas histórias inspiradas nesse conto, como o mangá Swordmaster Yaiba , jogo Touhou Project, o filme Inuyasha the Movie: The Castle Beyond the Looking Glass, o mangá Sakura Hime: The Legend of Princess Sakura, e muitos outros que não citarei pra não ficar horas e horas nisso. Mas tenha em mente; este conto do bambu é popular e já esteve presente na cultura japonesa readaptada várias vezes, seja direta ou indiretamente.



















O Conto da princesa Kaguya é um filme que fala sobre a passagem do ser humano no mundo. Logo nos primeiros minutos, quando o casal cria aquela menina como se fosse deles, o crescimento da garota acelerado causando espanto nas pessoas, o ouro encontrado na cana influenciando seu pai a obriga-la a ser algo que ela no fundo não desejava, tudo isso são pequenos acontecimentos que insinuam, de que se trata de um filme que fala sobre o nascimento, a busca pela felicidade, e a partida repentina. A lembrança de sua infância, representado e ansiado através de sonhos, é uma parábola sobre a saudade. O final, é um dos desfechos mais emocionantes que pude presenciar no estúdio Ghibli. O sofrimento de Kaguya se transformando em aceitação, é uma conclusão de ideia maravilhosa, pois mostra o quanto a personagem se desenvolveu durante a trama, o baque que isso afetou nos demais, fechando dessa maneira a história de forma crua, e frágil. Se eu não tinha conseguido chorar até então, nesse momento foi inevitável. 





















Eu ainda posso sentir um gosto agridoce na minha memória, quando lembro da trajetória de Kaguya. Aos poucos, ela vai deixando de ser aquela menina extrovertida, para uma pessoa cada vez mais séria, representando a saída de sua infância para o mundo adulto. Um amadurecimento brusco. Ao mesmo tempo em que existe uma sensação amarga nisso tudo, existia um sabor doce, denotando dessa maneira, numa obra bastante singular. Apesar de toda aparente ingenuidade que o filme demonstra no começo, com o surgimento dela no mundo, a meiguice ao dar os primeiros passos e tudo mais, irá se perder, em situações extremamente pesadas, para o clima que estava sendo proposto. Por isso, a narrativa é um choque. Elá é repentina, ligeira. Ela consegue mudar a atmosfera da situação da água para o vinho, sem causar confusão. Disto isto, chego na conclusão, que este filme é leve, mas também é muito pesado, cruel.

A mensagem que fica em mim, é de que; no meio desse amadurecimento doloroso, existe uma beleza inconfundível. Aonde está de fato o porquê disto, eu não consegui enxergar ou compreender. No entanto, eu pudi sentir na pele da protagonista. Não é um filme pra ficar buscando explicações complexas, mas sim para respirá-lo, senti-lo. Para mim, se trata de uma obra mais sentimental, do que racional. E não, isso não é um ponto negativo. Pelo contrário. Isso faz o filme ser uma perola única do estúdio Ghibli, digna de todos os Oscars do mundo.





















Um fato que eu achei de uma audácia e de uma sagacidade tremenda, foi a durabilidade do filme. Sim, concordo como muitos dizem, que o tempo de exibição poderia ser encurtado, porém, acredito que esse prolongamento tenha servido como um aliado na história. Eu adoro cada passo que a trama dá para a frente, no entanto, eu senti um pouco de sobrecarga quando ele chegou na metade, tornando assim, aquilo que era prazeroso e encantador, num momento de fuga para mim. Quando Kaguya fica naquela parte dos pretendentes e tal, não vou mentir, é penoso. Angustiante. Trágico. Dói ver uma menina cheia de alegria e disposição como aquela, converter-se numa moça submissa e triste. Nessa hora, minha vontade era de abandonar o filme. Ir lá fora, respirar, ver a luz do sol. Como se eu pudesse de alguma maneira, mudar o destino do filme quando eu voltasse. Porém, depois eu pude entender o porquê disto. Esse acontecimento chato na obra, é uma jogada intencional. É para mostrar claramente, de que o amadurecimento é uma coisa detestável de se fazer. Nesse sentido, o aborrecimento tinha significado, o que me deixou mais tranquila e aliviada.

Dito tudo isso, eu afirmo: O Conto da princesa Kaguya é um dos melhores filmes do Ghibli. Melhor do que alguns do Miyazaki e melhor do que muitos da Disney. Além de ter uma animação fabulosa, a história é linda, e, em momento algum se vandalizou ou não cumpriu com a proposta. É um filme para ver com o coração na mão, e com a sensibilidade ligada ao máximo. Isao Takahata encerrou com chave de ouro sua carreira. Eu não poderia esperar menos de um cara como ele.


















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