sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Tekkonkinkreet: Por que temos tanto medo de ver além da escuridão?

por Pedro
 
“O que tem o fogo? Ele é tão calmo e tão tranquilo, mas por dentro é só poder e destruição. Ele esconde alguma coisa, assim como as pessoas. Às vezes, temos que nos aproximar para descobrir o que tem dentro. Às vezes, temos que nos queimar para enxergar a verdade. ”

É por esse tipo de diálogo que posso dizer que Tekkonkinkreet é uma das animações mais surreais e humanas que eu já vi. E definitivamente, apesar do visual colorido e cartunesco como se tivesse saído dos muros de São Paulo como criação dos grafiteiros Os Gêmeos , não é nada infantil. Ela combina com excelência a tristeza, a melancolia, o sentimento de abandono e a raiva violenta, com a gentileza, inocência, felicidade e paz que vive dentro de todo ser humano. Um contraste de consciências, como anjos e demônios lutando pelo domínio de nossas almas.

Apesar de ter ido para as telonas apenas em 2006 (pelo Studio 4°C) a animação foi baseada em um mangá de mesmo nome, criado por Taiyo Matsumoto, e publicado originalmente entre 1993 e 1994. E como acontece com toda animação com mais de 10 anos de existência: é bem difícil de ser encontrada na internet com qualidade boa e idioma original. Porém, a dublagem brasileira é excepcional como sempre foi e não decepciona. O filme animado teve como diretor o americano Michael Arias que dirigiu também o filme japonês Heaven’s Door em 2009, a animação Harmony em 2015, e foi produtor de Animatrix em 2003, dentre outros trabalhos.

“Falar mal das pessoas faz o coração secar” - White
A trama conta a história dos irmãos Black e White. Os órfãos que vivem nas ruas da Cidade do Tesouro: um lugar superpopuloso e esquecido pela alta sociedade onde a pobreza e a criminalidade andam de mãos dadas. Os Gatos nome dado aos órfãos e delinquentes que habitam e comandam as ruas da cidade vivem pelas leis da selva, onde a sobrevivência pertence ao mais forte. Até mesmo a polícia não sabe lidar com eles, optando por muitas vezes deixar como está, pois, esse parece ser o fluxo natural da vida daquele lugar. O que torna impossível não comparar a Cidade do Tesouro com a Cidade de Deus ou com outras grandes comunidades brasileiras marginalizadas. Mas tudo isso muda depois que o Yakuza apelidado de Rato, e que é estranhamente fascinado por astrologia, retorna ao local com objetivo de assumir o controle da criminalidade e de todo o território visto como “uma terra de ninguém”. Estes elementos já seriam suficientes para o roteiro funcionar, porém, somos posteriormente apresentados à pessoa que contratou a Yakuza: um importante homem de negócios que revela estar trabalhando em um empreendimento para a Cidade do Tesouro com um estrangeiro misterioso chamado Snake.

“Gatos? Órfãos abandonados, delinquentes que mandam na Cidade do Tesouro. Eles vivem pelas leis da selva. Esta cidade é o parque deles. Se os subestimar vai se dar mal. ”
Mas a riqueza de toda a história é concentrada em peso nas complexas personalidades de Black e White. Como os próprios nomes já deixam claro (branco e preto) eles têm personalidades antagônicas, e ao mesmo tempo, necessitam e fazem tudo um pelo outro. 

Black é mais velho, mais forte e imbatível. Não tem medo de nada e em certo ponto é comparado a um animal que gosta do sabor de sangue. Enquanto White é uma criança frágil e imaginativa, que não consegue fazer nada sozinha, dependendo exclusivamente da proteção de Black e de outros moradores das ruas. Apesar da relação de irmãos, em nenhum momento temos alguma confirmação de tal coisa, pois não há nenhuma menção de seus pais, apesar de indicações possíveis que não mencionarei aqui, logicamente.

Mas eles jamais precisaram de adultos para sobreviver, pois a cidade é o seu paraíso. Eles não apenas a dominam, como são a representação da própria cidade e suas ruas. Os dois a percorrem fantasiosamente dando saltos como gatos donos da escuridão. Momentos estes que não podemos dizer se fazem parte da imaginação dos dois em contraste a dura realidade da vida miserável , ou se eles realmente têm o poder de fazer o que fazem. É um belo mergulho fantástico na mente fértil de uma criança. 

“Alô, alô. É Japão. Planeta Terra chamando! Agente White informando. Estão ouvindo? Este planeta é muito pacífico. Agente White mantendo a paz. Fazendo o possível para acabar com os bandidos onde quer que estejam” - White
As divagações de White nos mostram sua incrível capacidade altruísta, pois apesar de vivenciar a violência e muitas vezes fazer parte dela com Black, seus recorrentes pensamentos representam seu constante medo da morte e de perder seu irmão. Para ele, sempre que escurece referência ao Black/escuridão a melancolia surge e toma conta de sua alma. Suas atitudes contraditórias às suas ideias, eventualmente, acabam se mostrando necessárias para a realização de sua paz espiritual. Ele mantém em sua mente a busca incessante pela tranquilidade e afastamento da Cidade do Tesouro, mas sabe que isso não é possível sem o sofrimento atual.

“Para mim a noite é triste demais. Acho que é triste porque a escuridão faz eu ficar pensando sempre na morte” - White.
“Quando machucamos as pessoas eu peço desculpas aos deuses” - White.
Black, entretanto, causa medo em todo mundo. Ele é uma criança quieta de olhar pesado e extremamente imprevisível. Como se vivesse em cima de uma corda bamba, procurando equilíbrio constante para não cair no abismo e ceder à raiva animalesca. Os próprios Yakuzas têm medo dele. Ele repete incessantemente que é o dono da cidade, o que nos leva a crer que toda a sua atitude violenta é reflexo de seu propósito como o protetor da ordem. Talvez dizendo a si mesmo que faz o que faz pelo bem de White, que aparentemente, não conseguiria sobreviver em nenhum outro lugar a não ser na fantástica Cidade do Tesouro.

“Pare de dizer que a cidade é sua. É um habito ruim. Esta cidade não é de ninguém” - Vovô
Em certo momento um dos meninos que moram na rua tenta dissuadir White a abandonar Black, pois aos olhos do menino, Black só quer encrenca, enquanto White tem o coração e a alma pura que eventualmente serão corrompidos por seu suposto irmão. Mas White se mostra muito mais forte do que esperávamos e recusa a acreditar que Black possa ser uma pessoa ruim, permanecendo fiel.

Inúmeras interpretações

Tekkonkinkreet é uma história de interpretações. Somos bombardeados com diálogos e imagens surpreendentes que servem de dicas para possíveis motivos das coisas serem como são. E em como toda sociedade, a sua existência é complexa e obscura. Até mesmo a ação dos Yakuzas é suspeita, pois, mesmo com a missão de tomar o controle da cidade para o estrangeiro Snake, eles têm ideias contrárias ao de seu chefe, entrando em discordância sobre seu interesse em modificar a cidade para ganhar dinheiro. Aparentemente, em suas crenças distorcidas, a cidade só terá sua identidade enquanto marginalizada, esquecida, marcada com a pobreza e prostituição. O que talvez seja a explicação da dominação dos Gatos: filhos da comercialização da prostituição e violência que foram a base da criação da comunidade.

Minotauro


Como se não bastasse, há ainda a menção do Minotauro, como a personificação da força e do poder que dominam a cidade. A manifestação do medo na mente de uma criança. Mas também, como sabemos, o Minotauro da mitologia grega que foi abandonado em um labirinto era filho de Pasífae (mulher do rei Minos) com um touro, e devorava quem quer que entrasse em seus domínios. E essa, em minha opinião, é a melhor definição para o personagem Black.

Babilônia

Citada por um dos policiais, a Babilônia pode nos dar uma luz para entender a Cidade do Tesouro. Reconhecida por muitos como o berço da civilização, devido aos avanços econômicos, sociais, culturais e políticos, foi onde se estabeleceu o Código de Hamurábi que tinha como base a Lei de Talião, em outras palavras, era “olho por olho, dente por dente”. Nada diferente do que vemos acontecer na animação ou nas comunidades marginalizadas de nossa sociedade. Teve seu auge e sua decadência documentada na bíblia e ainda hoje é cercada de mistérios e interpretações.

É dito também que a antiga Babilônia era um lugar repleto de astrologia e adivinhação. Em Ezequiel 21:21 temos um relato do rei da Babilônia recorrendo à adivinhação para decidir-se se atacaria Jerusalém ou não:

"Pois o rei de Babilônia faz uma parada a fim de empregar a adivinhação na bifurcação da estrada, onde os dois caminhos se dividem. Ele sacode as flechas. Consulta seus ídolos; examina o fígado."

Talvez a obsessão de Rato antigo "dono" da Cidade do Tesouro com a astrologia tenha sua base nos primórdios da sociedade.

Conclusão

Tekkonkinkreet nos mostra a força interior das crianças, que mesmo fadadas à desgraça, superam com êxito questões que adultos não conseguiriam. A relutante e complexa luta interna que todos nós temos diariamente e como conseguimos vencer a escuridão com a ajuda e apoio das pessoas que amamos. E que mesmo em momentos onde tudo parece perdido em razão do duro choque da realidade, haverá sempre uma luz inocente e imaginativa dando-nos força para continuar ou mudar perante as dificuldades da vida.

Por mais conclusivas que sejam as interpretações da obra, uma dúvida ainda se mantém naquele cantinho de meus pensamentos: por que temos tanto medo de ver além da escuridão?

Obs.: Procurei o mangá loucamente, mas não consegui encontrá-lo para ler. Espero, pacientemente, pelo dia que será reimpresso aqui nessa terra nem um pouco esquecida pelos deuses.

Nenhum comentário:

Postar um comentário