quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Made in Abyss: Um misto de inocência com melancólia

Dizem que a primeira impressão é a que fica, certo? ERRADO!



Infantil, bobo, anime para vender bonequinho. Made in Abyss é tudo o que eu achava que não era. Para dizer a verdade, até agora eu não sei exatamente o que ele é. E isso é fascinante.

Eu não poderia começar esse texto de outra maneira, que não fosse definindo o anime como ''obscuro''. Engana-se quem pensa que a presença das crianças significa uma aventura feliz e divertida. Engana-se quem pensa que o perigo ali não é real. Engana-se quem pensa que as criaturas só estão ali para assustar. Engana-se quem pensa que é só uma ventura ingênua de crianças que não há nada para dizer. Que não há nada para se pensar, tanto nos mistérios construídos, como no que ela tentou passar ao longo de 13 episódios. Engana-se. Eu me enganei.

Made in Abyss é uma história que vai mostrar a trajetória da pequena menina Riko no mais profundo abismo chamado Abyss. Um lugar altamente perigoso, repleto de misteriosas criaturas violentas e relíquias de um passado distante. Somente alguns descem até sem medo, e eles são denominados de ‘’apitos brancos’’. A mãe da garotinha Riko era uma delas. Porém, ela se encontra desaparecida. Não se sabe se ela ainda está lá embaixo, ou se já está morta. Um dia, Riko decidi ir para lá para desvendar o mistério do paradeiro de sua mãe, mesmo sabendo que é um caminho sem volta. Porém, ela não vai sozinha. Ela vai contar com a ajuda do Reg, um moleque robô que tem sua origem desconhecida.

O estúdio Kinema Citrus se manteve fiel ao mangá de origem de Akihito Tsukushi. Com a direção acertada do experiente Masayuki KOJIMA, e a trilha sonora certeira de Kevin Penkin (Norn9, Under the Dog), Made in Abyss é uma adaptação rígida, com direito a som e imagem que qualquer outra obra sonharia em ganhar. Assistir essa história é estar dentro dela. O visual e o sonoro possui um casamento perfeito.

Há uma excelente citação no início do episódio 12 que reforça o espírito da série. É mais ou menos assim: ''...os aventureiros se dedicam voluntariamente para ir até Abyss. Para eles, uma vida sem saudade é mais aterrorizante que a própria morte.'' Isso me lembra dois personagens: Riko e Reg. Primeiro que a garota não demonstra se importar com às consequências. Ela sabe que existe o perigo. Mas para ela fica claro no decorrer, que o maior perigo se encontra em não fazer nada na sua cidade de Orth, principalmente sem ter notícias de sua mãe. Reg segue na jornada para ajudá-la e também demonstra reconhecer que o mais angustiante é ficar lá na cidade sem fazer nada, longe de sua única amiga. Os dois personagens estão cientes disso, e mesmo assim, enfrentam a advertência porque necessitam da aventura. Tanto porque são crianças – afinal, qual é o pirralho que não gosta de conhecer coisas novas e etc? – tanto porque estão ligados à algo emocional. 

A motivação pela qual move os protagonistas são válidas e honestas. Conforme os episódios avançam, fica cada vez mais nítido o quanto suas ambições são puras e genuínas. A relação que os dois constroem prova isso muito bem, e rende cenas hilariantes. Como nas vezes em que abordam a sexualidade, de maneira ingênua. Enfim. Cada um deles faz jus ao que eles são. Em nenhum momento, eles fogem de suas características, apresentando inconsistência de personalidade. Em determinado momento, Riko precisa se virar sozinha, e o que vemos, não é uma coragem e instinto de sobrevivência milagrosos se sobressaindo. Ela tenta se provar forte e sai sozinha, afinal ela é uma criança curiosa. Reg apesar de ser um robô, não é perfeito. Ele pode usar seu incinerador para matar alguma criatura, mas pagará um preço por isso; ficar desacordado por duas horas. E o que pode acontecer nesse tempo? Eu gosto demais do modo como os dois não fogem de suas essências. E claro, da imprevisibilidade do roteiro.

Não dá para saber o que pode acontecer. Qualquer coisa é possível naquele universo. Em diversas situações me peguei mudando de opinião sobre determinados personagens. Como a Ozen, o Habbo (risos), o professor de cabelo branco - que esqueci o nome e estou com preguiça de procurar. Quem assistiu os meus vídeos de react (falando em inglês para ficar mais chique), está de prova da minha inconsistência. Claro, acertei algumas, mas eram coisas muito superficiais. Gostei bastante do ''vento'' mudando de direção em vários episódios. Surpreendente do começo ao fim. E não me refiro apenas à acontecimentos grandiosos como o que aconteceu no episódio 10. Mas, à pequenos detalhes, que fizeram total diferença. Como a introdução de um personagem, a revelação de uma carta, enfim. 


O ritmo de Made in Abyss também é muito bom. Não há tempo para ficar entediado. Por mais que exista episódios mais calmos – aliás, eles também são necessários e importantes - os diálogos não deixam a ‘’peteca cair’’. Tudo soa curioso. Cada evento puxa outro de forma sutil e quando se dá conta, se passaram uns seis episódios (não lembro exatamente quantos, só sei que foi um número considerável) e eles já estão lá em Abyss. Sim, a série passa um pouco mais da metade só construindo a atmosfera propicia, para então, chegar o momento tão aguardado. Porém, o diretor faz isso de uma maneira que não soe longo. É bem gostoso e muitas vezes divertido acompanhar o desenvolvimento da história, que nem sempre vai mostrar o que estamos esperando desde o começo. Os alívios cômicos, as descobertas, os imprevistos, ajudam e muito para que não torne uma aventura enrolada com eventos desnecessários. Cada ação pode ser que não tenha muito sentido na hora, mas depois, tudo tem mais significado. Você acaba que se tornando um explorador-aventureiro junto com as crianças. Um cúmplice. 

O realismo é outro que rouba a cena durante o trajeto. Por mais que seja um anime de fantasia, a série não foge dentro das regras que ela mesmo criou. Por exemplo, Riko e Reg não chegam do dia pra noite em Abyss, por mais que eles estejam preparados para possíveis ameaças, eles não tem noção de como agir num momento de surpresa, além do fato, de não se recuperar bruscamente de um ferimento. São detalhes criam veracidade naquela história, e por mais fantasioso que seja, tudo ganha um realismo descomunal.









Sobre os personagens, sim, minha preferida foi a Nanachi. Desde o primeiro episódio em que ela apareceu (isso quase no fim da série, no episódio 11), ela se mostrou muito mais interessante do que a própria protagonista Riko. Em pouco tempo, apresentou ter bem mais química com o Reg, o dobro de carisma, e um passado bem mais comovente. Os diálogos dela são carregados de empatia, e sempre trazem momentos divertidos e importantes. É uma dádiva sem tamanha, esse feito na reta final do anime. Os casos em que isso acontece, são extremamente raros. 

Quanto aos demais, não tem tanto o que falar. Todos só foram apresentados ali, e não tiveram um maior aprofundamento ou relevância na história. Talvez a única exceção (tirando a Nanachi) seja a Ozen. Ela foi ganhando espaço aos poucos, até que do nada, os protagonistas trombam com ela na trama, e faz surgir a dúvida; ela é uma aliada ou inimiga? diversas vezes questionei isso. E o mais interessante disso tudo, é que não é uma dúvida simples e natural. É do tipo de dúvida que você acaba tomando decisões precipitadas. Eu realmente cheguei a acreditar que ela era do bem. Minutos seguintes, tive a certeza que ela era do mal. Depois, descobrimos que ela era realmente do bem. Porém, ainda fica uma sementinha de dúvida. Com sua aura misteriosa e seu estilo carrancudo e muitas vezes bruto, pode-se dizer que ela é uma personagem forte e marcante. Não é como a Nanachi, afinal, a gente não sabe tanta coisa sobre a Ozen, e o que sabemos não é o suficiente pra criar um envolvimento maior. Ainda sim, os momentos com ela são curiosos e interessantes.










Dito isso, Made in Abyss foi uma experiencia estranha - e isso é um elogio. Foi simplesmente fantástico o sentimento frio, de solidão e melancolia, presentes naquela história. A atmosfera é o grande show da série, e foi o que me ganhou. O senso de aventura está impregnado por todos os lados em que os personagens avançavam, e a fantasia é mais real do que nunca. 

Com uma equipe competente, a animação tem um visual de encher os olhos. Além de uma trilha sonora bem feita. Made in Abyss não é o melhor anime de 2017, mas com certeza foi um dos mais surpreendentes.

Em breve solto um vídeo no canal, comentando a série com spoilers, pra encerrar de vez o assunto. 
Enquanto isso...


  >>Você pode assistir minha reação e mini-reviews de todos os episódios clicando aqui.<<

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