terça-feira, 15 de janeiro de 2019

[ANÁLISE] Fullmetal Alchemist: Pro inferno com a troca equivalente!

É isso aí!

Mesmo 9 anos após o término de uma das melhores histórias já escritas e trabalhadas em um mangá, Fullmetal Achemist ainda surpreende. Apesar de eu já ter assistido o primeiro anime uma vez e três vezes o Brotherhood, apenas recentemente pude ler o mangá na íntegra e me deliciar com alguns detalhes que eu não tinha percebido antes. Coisas que só me fizeram confirmar aquilo que eu já tinha definido há muito tempo: essa é a minha obra japonesa favorita.

Muita coisa já foi dita sobre essa elogiada obra, e é inegável que, de vez ou outra, mais alguém se fará de advogado de defesa desse genial e maravilhoso fruto da mente da mangaká – igualmente genial e maravilhosa – Hiromu Arakawa. Mas honestamente, apesar de tantas lições e superações que nossos amados personagens enfrentam, nada me parece mais significativo e real do que a última: PRO INFERNO COM A TROCA EQUIVALENTE!

Se você, que assim como eu é fã de carteirinha desta série, sinta-se convidado a reviver alguns momentos emocionantes – logicamente com muito spoiler – que merecem ser analisados e debatidos. Separei alguns pontos interessantes que foram trabalhados nos protagonistas e que no fim contribuíram com uma conclusão épica.

Auto Sabotagem

Em resumo, a auto sabotagem é a nossa ação, consciente ou inconsciente, de colocar obstáculos que nos impedem de conquistar objetivos em nossa vida. Por exemplo, o ato de procrastinar e deixar de estudar para uma prova, mesmo ciente que você não sabe nada daquele assunto e caso não estude irá falhar miseravelmente. Ou ser grosso sem motivo com alguém que é gentil com você, simplesmente por não achar que merece essa gentileza. E é aqui que está a palavra chave. Merecer. Se auto sabotar está ligado diretamente ao sentimento de não se achar merecedor de tal coisa, portanto lá no fundo, se sentir infeliz é mais natural.


A criatura que guarda A Porta da Verdade afirma (volume 6): Sou a existência que vocês chamam de “Mundo”. Ou de “Universo”. Ou de “Deus”. Ou de “Verdade”. Ou de “Tudo”. Ou ainda de “Um”. E mais. Eu sou “Você”. E logo em seguida: Seja bem-vindo. Caro Idiota que não soube se pôr no seu lugar. Não faz escândalo. Isso é o que você estava querendo, não entendeu? Vou te mostrar a verdade. E após mostrar a Verdade a Edward Elric, pega sua perna esquerda como pagamento equivalente.

Aparentemente é uma punição à altura dos atos dos irmãos Elric, que quebraram as regras e fizeram a proibida alquimia humana, cometendo uma blasfêmia ao tentar reviver um ser humano. Se analisarmos sob outro ponto de vista, as crianças realmente mereciam tanta punição assim? Não estariam elas buscando apenas a felicidade e companhia da pessoa que mais amavam? A troca foi justa, levando em consideração que elas nem ao menos conseguiram aquilo que queriam? Não, não foi. Foi fruto da auto sabotagem. Ed perdeu a perna e depois o braço, enquanto seu irmão perdeu o corpo todo. E o que restou aos dois foi uma fração da “Verdade” e muito sofrimento. 

Quando o ser branco da porta afirma “eu sou você” deixa claro que ele é algo que está dentro de nós e que nos entende, apesar de não o entendermos. Ao se igualar a Deus ele se coloca no controle da pessoa, tendo o poder de dar e tirar aquilo que ele quiser. Em outras palavras, ele é aquela voz da nossa mente que nos reprime, nos rebaixa, e afirma que não merecemos a conquista. E essa punição se manifesta através da intensificação dos conhecidos Pecados Capitais, que nada mais são do que males que nos afastam do aprimoramento pessoal, desvirtuando nossa alma.


Ao expurgar todos os seus pecados em forma de homúnculos, o Pai tenta se fazer merecedor de toda a Verdade, aperfeiçoando seu espírito e seu corpo. E mesmo após conseguir tudo o que queria e se tornar uma existência perfeita, ele ainda é punido pelo seu ser interior. Após repetir as mesmas palavras que disse ao Ed, o guardião também diz: Os humanos são brindados com o desespero merecido para punir e ensinar a não serem presunçosos... também será brindado com o desespero. O desespero merecido àqueles que são presunçosos... foi você quem escolheu esse destino. 

Quando o Homenzinho do Frasco foi criado (a partir do DNA do Hohenheim), ele nasceu como uma cópia do guardião da Porta da Verdade, porém incompleto, pois não tinha acesso a toda a Verdade. Entretanto, tinha um forte poder te persuasão e controle sobre as pessoas. Ele era a manifestação maligna do que temos dentro de nós, e o ato de derrotá-lo representa a superação da auto sabotagem.

Também não posso deixar de mencionar que um pouco antes do fim, já tomado de desespero, o Pai tenta absorver o homúnculo Ganância na tentativa de prolongar sua vida, mas acaba apenas recebendo um golpe interno final. Ganância foi o último homúnculo a morrer e morreu junto com o Pai. O suposto ser mais perfeito e preparado para receber os poderes de Deus, sucumbe ao fracasso utilizando de sua ganância como último recurso. E essa é a sua sina. Muito significativo, não acham?


Superação através da união

Logo no volume 1 do mangá, enquanto Ed enfrenta o profeta Pai Cornello que tem a pedra filosofal, ele diz algo muito significativo: Desce daí principiante. Eu vou te mostrar a diferença de nível entre mim e você!! Remetendo ao fato de que o profeta utilizava a pedra filosofal para fazer alquimia, burlando a lei da troca equivalente e prometendo coisas impossíveis aos fiéis. No último volume Ed diz algo parecido enquanto enfrenta o Pai dos homúnculos: Levanta aí, idiota de quinta categoria!!! Vou mostrar a diferença de nível entre a gente e você.

Na batalha final nós vemos a união. Todos os personagens restantes se ajudam para derrotar o Pai. Após muita bagagem adquirida e demônios internos vencidos, vemos até o maior anti-herói, Scar, completamente transformado. E junto com ele, Ling, May Chang, Mustang, Hawkeye, os Armstrongs, Hohenheim e muitos outros que deram suas vidas pela vitória.


Nos anos que se passaram desde que os irmãos Elric quebraram o tabu da alquimia e aprenderam a viver com isso, eles tiveram muitas provações, conheceram muita gente, fizeram muitos amigos e conquistaram com a sua inocência e determinação a admiração e o apoio de muita gente. Pessoas que depositaram neles a esperança e os protegeram, exercendo o papel dos pais que eles perderam, fortalecendo-os para o final.

Após Al se sacrificar trocando sua alma pelo braço direito de Ed e ajudando-o a derrotar o Pai, nosso alquimista de aço finalmente, cercado por todos aqueles que ama, descobre a resposta final. Ele não precisa mais usar a pedra filosofal para conquistar aquilo que almeja, pois tudo o que ele precisa já está diante dele. As pessoas são diferentes umas das outras, com qualidades e defeitos que sozinhos podem se prejudicar, mas quando estão lado a lado e se apoiam, têm o poder de se completar, tornando-se uma consciência perfeita e superando qualquer barreira.


O último encontro de Ed com o guardião da Porta da Verdade nos confirma tudo isso, quando ele oferece a sua própria “Verdade” em troca de seu irmão. Tudo aquilo que ele conquistou com a alquimia humana, e tudo aquilo que ele poderia ter conquistado ainda se tivesse oferecido mais. Em resumo, tudo aquilo que ele tinha direito, pois estava dentro dele. O último e máximo auto sacrifício que alguém pode fazer por outra pessoa. A ação mais altruísta de todas faz com que ele vença ele mesmo. 

Ed: O pagamento está aqui. É enorme. A Porta da Verdade se encontra no interior de todas as pessoas. Isso significa que todos são capazes de usar a alquimia.

Guardião: Não se importa de se rebaixar a um reles humano que não poderá mais usar a alquimia?

Ed: Não tem dessa de me rebaixar. Sou apenas um humano desde que nasci. Um pequeno humano incapaz de salvar uma única garotinha transformada em quimera. Depois que vi a “Verdade”, passei a depender dela, me tornei confiante demais e cometi um erro após o outro... essa porta me fez de gato e sapato.

Guardião: Então você não precisa mais disso?

Ed: Alquimia pra quê, se eu ainda tenho meus amigos?! 

Guardião: Correto, alquimista. Você me venceu. Venceu a Verdade. Pode levar o que quer! Leve tudo!


Ao descobrir que o benefício próprio foi aquilo que causara toda a sua desgraça e de seu irmão – como também a destruição do Pai –, Ed percebeu que a verdadeira alquimia era o bem comum, o ato de se doar ao próximo. E no momento em que trocou sua “Verdade” e perdeu a sua alquimia é que foi finalmente reconhecido como alquimista por aquele que havia lhe tirado tudo.

Você merece mais!

Depois de todas as injustiças presenciadas no decorrer da mais importante aventura de suas vidas, os irmãos Elric finalmente chegaram à conclusão de que o conceito da troca equivalente, que eles tanto se agarravam, estava equivocado. Pois quando você troca coisas com o mesmo valor, vai sempre receber o mesmo.

Elicia: Está falando da “troca equivalente” da alquimia?

Al: Não. Nada vai mudar se recebermos 10 e devolvermos 10... mas se acrescentarmos o nosso 1 a esses 10 que recebemos... poderemos entregar 11 a próxima pessoa.

A alquimia é o processo de transmutação que pode ser aplicado tanto para coisas como para pessoas. Não na forma da transmutação humana, mas da transmutação do caráter, do espírito. Não se alcança a perfeição se afastando de tudo aquilo que empobrece o ser humano, mas abraçando e lidando com a ajuda daqueles ao seu redor. O divino e o mundano estão dentro de nós, e enquanto um falar mais alto que o outro, só haverá desgraça. Somente quando as vozes aprenderem a conversar harmoniosamente é que as barreiras serão quebradas e as pessoas irão triunfar.

PALAVRA DA AUTORA: 

Tomei o cuidado de colocar muitas palavras de cumprimento e gratidão nas falas dos personagens de Fullmetal Alchemist. Eu acredito que dentro da comunicação, que é o elo entre nós e os outros, o cumprimento é a coisa mais fácil de se fazer, e que as palavras de gratidão nos fazem sentir que “as pessoas vivem uma sustentando a outra”.

E agora que o mangá chegou ao fim, gostaria de me dirigir a todas as pessoas que se envolveram nesta obra e dizer: “Nos vemos de novo em algum lugar!” e “Muito obrigada!”.

Hiromu Arakawa.

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