domingo, 6 de janeiro de 2019

UZUMAKI: O Horror Hipnotizante da Espiral

"Aff... olha quem tá vindo."

Olá terráqueos! Eu gostaria de começar meu primeiro texto de 2019 desejando a todos felicidades e realizações neste ano, e também, muito amor e boa companhia nos momentos bons e ruins. E lembrem-se de que estamos todos no mesmo barco – ou deveria dizer nave? Ótimo, agora que já atingi minha cota de sentimentalismo do ano, vamos direto ao ponto.

Algo se aproxima sem ser notado e se aloja, multiplicando-se instintivamente a ponto de fazer parte da vida pacata de uma pequena cidade. Aos poucos, acontecimentos isolados vão dando forma a uma enorme espiral de tragédias, tragando tudo e todos no horror mais bizarro que a mente humana poderia imaginar.

Uzumaki (espiral) começa com a sua personagem principal, Kirie Goshima, narrando os acontecimentos que se sucederam na cidade costeira de Kurôzu (redemoinho preto), desde o dia que as coisas começaram a ficar estranhas. Ou pelo menos, desde o dia em que ela percebeu que estavam.


Ao sair de casa atrasada, Kirie corre para encontrar com seu namorado, Shuichi, na estação de trem e no caminho, logo após presenciar um pequeno tornado, se depara com seu sogro agachado em um beco, encarando de forma compulsiva um caracol na parede. Após tentar falar com ele, e fracassar, Kirie decide continuar seu caminho até a estação. Ao comentar com seu namorado sobre o que acabara de ocorrer, que para sua surpresa concorda que o pai esteja estranho ultimamente, é também surpreendida com um pedido dele para os dois fugirem juntos daquele lugar. Shuichi diz que tudo na cidade está incomodando-o a ponto de achar que pode enlouquecer se ficar lá por muito tempo.

Obviamente os dois não fogem e a partir deste dia tudo começa a se intensificar. A obsessão do pai de Shuichi começa a ficar preocupante, pois ele passa a maior parte do dia dentro de um quarto admirando várias peças em espiral. Seu novo comportamento o faz ficar irreconhecível. Os acontecimentos vão evoluindo e então somos bombardeados com a primeira imagem bizarra e horrorosa – e também maravilhosamente bem desenhada – da forma como ele morre.
Não se preocupe, isso não é um spoiler significativo.

Depois disso, seu corpo é cremado e a fumaça da cremação toma conta do céu formando um enorme redemoinho negro, horrorizando todos os presentes no funeral. Sua mãe fica em estado de choque que perdura por dias, a ponto de desenvolver uma fobia extrema de tudo que remete à forma espiral e nos fornece outras ilustrações repulsivas.

Aliás, ler ou assistir qualquer coisa relacionada a Junji Ito é pedir para presenciar coisas asquerosas e repugnantes, que parecem surgir de uma parte obscura e primordial da mente do ser humano, como um medo que todos temos, mas não sabemos. Apesar de ter como inspiração mestres do Horror como Kazuo Umezo, Hideshi Ino e até mesmo H.P. Lovecraft, Ito já declarou em sua entrevista com Naoki Urasawa, de que muitas de suas ideias vêm de medos comuns que ele tinha na infância: medo do escuro ou de lugares antigos e abandonados.


Conforme a história avança muitas outras coisas impensáveis começam a acontecer, desafiando as leis da física e a sanidade dos cidadãos. E por mais extraordinário e impossível que seja, as pessoas na cidade parecem não se abalar muito, como se o que estivesse acontecendo, apesar de inacreditável no momento, se tornasse algo normal depois. Todos menos Shuichi e Kirie, que mesmo estando envolvidos na maior parte dos infortúnios, permanecem unidos e lúcidos, como se estivessem sendo salvos apenas pelo apoio um do outro.


Parece até sobrenatural, mas há algo nas histórias de Junji Ito que carrega mais emoção do que realmente aparenta. Mesmo em cenas de completa desgraça, há um sentimento cômico, que por um momento consegue fazer o leitor se sentir culpado por achar graça de algo tão horrível, mas logo em seguida o traz de volta à sua realidade, fazendo-o raciocinar sobre como aquilo é realmente improvável. Eventualmente torna-se impossível não admirar ainda mais o poder da arte aliado à incrível habilidade de contador de histórias que Junji Ito tem. Não à toa, já que é considerado um mestre do Horror.

Na edição lançada pela Devir em 2018, que está maravilhosamente editada e bem apresentada, – tirando alguns poucos errinhos de digitação que poderiam ser facilmente evitados – temos também uma análise bem interessante após o fim da história, feita pelo ex-diplomata e agora escritor, Masaru Sato. Sato faz um paralelo entre a maldição da espiral e o capitalismo frenético dominando o mundo, principalmente no Japão dos anos 90 em diante. Em sua reflexão, aponta essa obsessão e controle de algo sobre a massa, como um mal que devemos estar atentos. Ainda, segundo Sato, ler Uzumaki é uma boa forma de entendermos aquilo que Karl Marx quis dizer em O Capital

Concordando ou não com essa visão, é inegável que Uzumaki é uma obra essencial e deve ser apreciada por qualquer fã, ou qualquer pessoa que queira ter uma experiência incrivelmente perturbadora, e que ao fim, a fará refletir o quão fina é a fronteira entre o prazer e o horror. Ou pior, ficará incomodada a ponto de nunca mais ver espirais com os mesmos olhos. De uma forma ou de outra é uma experiência transformadora.

Até a próxima!

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