domingo, 15 de maio de 2016

Nijigahara Holograph: Poucas páginas, muitas perguntas






Não espere respostas.

Todo bom otaku que se preze já sabe quem é Inio Asano. Digo isso, pois todo aquele que frequenta blogs ou tem o costume de ler mangás mais diversificados, com certeza, em algum momento, ouviu pelo menos falar o nome dele. Se por acaso você não se encaixa nessa lógica - oque eu duvido muito - e não sabe quem é esse cara, recomendo que leia os mangás Solanin e Oyasumi Punpun. Veja com seus próprios olhos o quanto o autor se destaca dentro do seu estilo descompromissado de uma maneira curiosa. Veja também todo o detalhismo de sua arte e se encante por personagens feitos de carne e osso. E principalmente: coração. Se você conseguir enxergar isso, nós estaremos no mesmo barco. Ou o melhor; olharemos para o ''pôr-do-sol'' juntos.

''Nijigahara Holograph'' é um mangá seinen lançado em 2003/2005, publicado na Ohta Publishing's QuickJapan. Com apenas um volume, Inio Asano constrói uma história (?) daquelas que deixa qualquer um mais perdido que bala em tiroteio. Mas veja o lado bom, você terá um significado diferente toda vez que reler. No Brasil, o mangá vem pela JBC, então já sabe né amiguinhos. Seu dinheiro será bem gasto. Agora, torcemos para que saia numa qualidade boa, afinal, é um mangá pra pegar pra ler várias vezes e não pra deixar jogado num canto juntando pó.
Mesmo com borboletas ameaçadoramente proliferando na cidade, o rumor de uma misteriosa criatura que está à espreita no túnel atrás da escola se espalha entre as crianças. Quando o corpo da mãe de Arie Kimura é encontrado na entrada do túnel, junto aos vestígios aparentemente humanos, a lenda parece ser confirmada. O fim do mundo está próximo? Com a finalidade de apaziguar a ira da besta as crianças decidem oferecer um sacrifício pelo túnel Nijigahara. Este é apenas o início dessa complexa e misteriosa história.

Todos nós estamos sujeitos a tirar conclusões erradas o tempo todo. Isso é perfeitamente normal no mundo em que vivemos. O fato é que nunca conheceremos a verdade por trás das coisas. Não dá pra saber o porquê de tudo e de todos. Ainda mais quando tal assunto passa dos limites de nossa compreensão. Quando isso acontece, nós completamos esses espaços vazios e escuros com aquilo em que quisermos. Eu e você compartilhamos de um mesmo super-poder; a da interpretação. No entanto, nossos poderes são diferentes pois eles são livres para seguir caminhos opostos. Com isso, vivemos num ninho de infinitas possibilidades.

O que eu quero dizer com tudo isso, é o seguinte. Nijigahara Holograph é uma dessas coisas que você necessita adaptar para o seu mundo. Assim como todas as obras Inio Asano, o mesmo acontece com esse, porém, num nível muito mais elevado. Nem o próprio autor soube responder as perguntas da imprensa ao tentar explicar seu mangá. Quanto mais nós, seres humanos carentes por sabedoria, poderá apontar respostas concretas sobre tal. Não temos a verdade, mas temos a imaginação. E é com esse dom divino que você pode transformar seu universo no lugar perfeito. Trazer significado para tudo.


Já assistiu algum filme do diretor David Lynch? Nijigahara Holograph parece que foi escrita por ele. Isso porque David brinca com o absurdo, e mistura realidade com sonho diversas vezes. Twin Peaks, uma das minhas séries favoritas por sinal, é um exemplo clássico disso. Por isso, é perfeitamente natural se sentir perdido às vezes. Assim como nesse mangá, cada quadro parece ser um novo começo. Todo capítulo parece que é o último. Você não tem noção de quando a história realmente está no ápice, e quando isso acontece, surge outra situação ainda mais ''urgente'' que a outra. É um constante movimento. Cada situação invade a outra, quase no mesmo quadro. Durante todo o percurso temos close nas bocas dos personagens, nas mãos, num simples toque de dedo no ombro, e até mesmo close em uma ereção. Essa visão detalhada, dá vida ao que está sendo contado. Sendo desta maneira então, uma fórmula pra trazer verdade ao sonho, na mesma linha temporal. 

Eu realmente gosto da narrativa, apesar de toda estranheza e confusão, porque ela sugere que estamos dentro da cabeça do personagem. Que estamos lembrando de coisas, e essas coisas vão puxando outras, e assim vai indo. Sabe quando deitamos para dormir, mas bate àquela insônia? Nossa mente é tomada por pensamentos, lembranças, passado e futuro, pessoas, desejos, sensações, e tudo isso, parece tão real.  Dá a alusão que todas elas são uma só. Todos esses detalhes enriquecem esse modo de contar brilhantemente, porém, dá pra esquecer facílimo de tudo o que leu no minuto seguinte. Assim, como é lembrar de um pensamento. É extremamente difícil tentar voltar ao momento inicial quando teve certo ''insight'' durante o dia, ou à noite.  Eu diria que é praticamente impossível se recordar 100% dos seus pensamentos do dia anterior. Algo se perde. Morre. A experiência que essa leitura traz é exatamente essa. Olhando por esse lado, a obra é quase que uma pessoa à parte. De tão humana que ela é.




Nijigahara Holograph faz referencia no nome ao túnel que fica atras da escola das crianças. A criatura misteriosa que todos falam que vive lá, e que irá acabar com o mundo, se trata de um boato que ocasionou entre eles. Afinal, os corpos de pessoas mortas que são eventualmente encontradas lá, não são obras do sobrenatural. Mas sim, deles próprios. Inio Asano teve essa inspiração numa brincadeira japonesa infantil chamada Hana Ichi Monme. Na brincadeira, as crianças de cada time dá as mãos formando uma linha, ficando assim frente à frente (deixando as fileiras paralelas), durante a cantoria da música do jogo, cada time decide quem do time adversário quer do seu lado. As duas crianças escolhidas jogam Jokenpo (pedra,papel,tesoura) e o perdedor vai para o outro time. O jogo acaba quando um dos times não tiver mais crianças.

Nessa história, não existe personagem bonzinho e vilão. Cada um tem o seu lado ''escroto'', inclusive os professores das crianças. É interessante notar, que Inio Asano não trabalha apenas a questão de indecisões na vida de um adolescente, mas também mostra a cicatriz deixada pelas escolhas erradas, como foi o caso deste mangá com os professores. Ao mesmo tempo como pode gerar revolta a atitude da professora com sua aluna em certo momento, logo no capítulo seguinte, a personagem se desfaz, e mostra a vulnerabilidade dela, não de maneira exaltada ou contemplativa, em momento algum Asano engrandece o personagem, mas mostra o lado humano. De que existe porquês, consciência, mágoa, e um punhado de outros sentimentos escondidos na personagem, que não transforma ela na vítima/coitada da história. Pelo contrário. A fragilidade revelada, mostra o peso de uma escolha infeliz, e o quanto isso destrói ela por dentro, até transbordar isso pra fora, machucando a si própria como as pessoas que convivem com ela, como seus filhos e marido.


Existe um sentimento que eu diria que é um personagem próprio. Que é o julgamento. As pessoas se julgam a todo momento. Elas se cobram muito, se sentem vigiadas e criticadas 24 horas por dia. Esse é apenas um dos detalhes que o autor insere nessa obra que humaniza todo o conceito da trama. Fora isso, tem o fato de que Inio Asano não joga uma característica realista das pessoas no mangá de mão beijada. Em poucas páginas, ele explora isso abordando a consequência que isso acarreta. É por isso que eu gosto desse autor, porque ele não apenas joga informações no mangá de qualquer jeito, isso me dá a sensação de ler um aprofundamento de personagem completo. Sinto que cada um ali é único. Jamais pude ver na obra do Asano personagens idênticos. É como se eu olhasse pra pessoas comuns, que por mais se sintam às vezes de maneira igual, como deslocado na sociedade, cada um possui uma particularidade. Uma coisa única, que só cada ser humano pode proporcionar.

Não basta mostrar o X da questão pela metade. Tem que deixar bem visível como eles lidam com isso. Que apesar disso prender-los dentro de um casulo sufocante, eles ainda permanecem vivos. Quando a esperança vai embora, quando a reclusão bate à porta, a única coisa que resta é a força de vontade, o desejo de conseguir encontrar um lugar novo.


Não é tão difícil saber o que o túnel de Nijigahara representa, tão pouco o enxame de borboletas que aparecem repetidas vezes no mangá. Ao contrário do que pode parecer, não é nada complexo - Isso claro, se você souber usar a imaginação/interpretação. Existem muitas possibilidades. Porque o Inio Asano não usa como um recurso para confundir, mas sim para exemplificar os anseios dos personagens. Basta apenas tentar entender do seu modo. Para mim, as borboletas significam renascimento, e esperança. Mas isso é apenas um chute. Existem muitos outros simbolismos escondidos, tanto na narrativa como na arte de Asano, que poderão lhe levar para outras conclusões. Mas não se assuste, essa é a intenção.


Por fim, Nijigahara Holograph encerra em forma de dúvida. Afinal, isso é tudo o que temos certo? Eu sei que tudo o que eu disse foi de uma maneira rasa - até porquê, eu não tenho as respostas tão almejadas. Na verdade, esse texto parece mais um jabázão, e de fato é. Só queria jogar aqui alguns pensamentos e só. Espero que tenha despertado o interesse em alguém, de alguma forma. É isso. Leiam!

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