segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Precisamos Conversar Sobre ''Kami no Kodomo'' Urgentemente!


Post não recomendado para pessoas sensíveis e frágeis.

Kami ni Kodomo (ou God's Child), é um mangá de horror de 2009, de autoria de Nishioka Kyoudai - dois irmãos que publicam vários outros trabalhos experimentais surrealistas na Seirinkogeisha, como Jigoku, Boku Mushi, entre outros. Os irmãos Nishioka são conhecidos pelos seus mangás de apenas um volume, com capítulos curtos que se assemelham à pequenos one-shots, dentro de uma única história. Autor também de muitas coletâneas, Nishioka adora desenhar seus personagens bem diferentes dos mangás padrões, e opta por uma arte mais parecida com a do Picasso, se assemelhando bastante então por sua vez, com o designer abstrato de Fantastic Planet. Hoje vou falar um pouco sobre Kami no Kodomo, obra esta publicada na Ohta Shuppan - editora que dá voz para a subcultura do Japão, mangás e livros controversos, enfim, que fogem da linha. Escolhi ele pra conversar um pouco hoje, porque é uma obra que está repleto de significados do começo ao fim, e acho que o momento é mais do que propício. Espero que pensar por alguns instantes sobre ele faça alguma diferença na sua vida, assim como fez na minha. Então, vamos ao que interessa.


Pegando o básico da sinopse, Kami no Kodomo mostra o processo do crescimento de um ser sociopata. Indo desde os primórdios, até o comecinho da fase adulta. Pra quem não sabe, a sociopatia é classificada como um transtorno de personalidade que é caracterizado por um egocentrismo exacerbado, que leva a uma desconsideração em relação aos sentimentos e opiniões dos outros. Um sociopata não tem apego aos valores morais e é capaz de simular sentimentos, para conseguir manipular outras pessoas. Além disso, a sua incapacidade de controlar as suas emoções negativas torna muito difícil estabelecer um relacionamento estável com outras pessoas. Porém, é importante ressaltar que sociopata e psicopata podem parecer sinônimos, mas são coisas diferentes na prática. Uma das principais diferenças é que frequentemente os psicopatas são pessoas encantadoras e populares, que muitas vezes exercem cargos de liderança e que conseguem atrair pessoas para elas própria. Um sociopata não é muito bom em contextos sociais, sendo muitas vezes classificado como uma pessoa antissocial. Apesar disso, o sociopata é capaz de fingir ou forçar sentimentos, parecendo estar à vontade ou contente quando na realidade não está. Por outro lado, o psicopata muitas vezes se sente confortável em grupos, vendo essa situação como uma oportunidade para manipular os outros para o seu próprio benefício.

Pois bem. Em Kami no Kodomo, você verá um sociopata se tornando um psicopata. Essa é a premissa básica.




Existe muita coisa sendo dita nesse amadurecimento doentio. Uma delas, é que, nitidamente, a criança não escolheu esse caminho monstruoso porque quis. Há vários fatores que contribuíram com isso, tornando assim, o que ela é hoje. Um desses motivos, se deve à criação que a família opta para seu filho.  Aos poucos, ela vai moldando o caráter da pobre criança sem perceber, por pura falta de atenção e cuidado. Os pais falham miseravelmente em educar no que é certo e o que é errado; uma das demonstrações mais claras disso é o momento que a criança pinta às paredes com fezes, e a solução mais cabível que eles encontram é levando ao médico, e concordando com o método de substituir fezes por argila. Perceba que, uma solução temporária não resolve as coisas por completo. E o mundo, querendo ou não, vai ensinar isso da pior maneira - vide o estupro que acontece.

Um ponto interessantíssimo nesse mangá, é que ele pega a fase bem inicial mesmo do nascimento da criança, indo até de encontro com a fase gestacional. Não pense que isso seja apenas ''preparação de terreno'' para o verdadeiro plot explodir nossas cabeças. Não. Kami no Kodomo não possui uma trama central; constantemente somos levados para um outro rumo na história. Mas o foco está ali, as coisas estão sendo ditas e abordadas de maneira explícita até demais. De resto, não dá pra saber pra onde a maré vai nos levar no enredo, pois se trata de um amadurecimento de personagem. O clímax está já na primeira página, e perdura até a última. Claro que ele possui uma apresentação e um desfecho, no entanto, é tensão do começo ao fim. E Kami no Kodomo consegue ser bem redondinho, o que é um puta feito em minha opinião.

Eu gosto bastante também dessa pegada mais ''predestinada'' que a obra apresenta. Que desde os primórdios ele já matou os seus outros irmãos ainda na barriga. Um aspecto que se pode tirar disso que é um elemento bastante significativo para o enredo, é o fato de que na vida ''só sobrevivem os mais fortes''. Isso se torna ainda mais gritando com o decorrer da trama, quando ele se apodera da mente dos seus coleguinhas e os torna em verdadeiros discípulos. Todos somos filhos de Deus, no entanto, somente o mais corajoso e perspicaz poderá de fato se tornar uma divindade em vida. Porém, isso traz a traição, e assim como acontece com Jesus, sempre haverá de haver um Judas. E como diz o ditado '' a vingança é um prato que se come frio''. 


O ser humano nasce com o instinto assassino, e basta apenas um estimulo para libertar isso de dentro. Claro que não é uma coisa que é despertado do dia pra noite. Pra que isso ocorra, é necessário que aconteça um processo, uma série de eventos que provoquem marcas profundas no psicológico da pessoa. Em Kami no Kodomo isso é representado com o estupro da pessoa que o garoto gostava, com o bullying que a sua colega de classe vivia todo santo dia. É a junção dessas coisas presenciadas por ele, que desencadeiam esse sentimento horroroso e transforma sua sociopatia em psicopatia. Não saber diferenciar o certo do errado, também é um dos contribuintes. Eu gosto de como isso nesse mangá é representado bem. Quando o adolescente mata alguém na frente de um monte de crianças mentalmente fracas, o que desencadeia é esse instinto homicida mencionado anteriormente. É como se um leão fosse libertado da jaula.  

Kami no Kodomo me lembrou ''Laranja Mecânica'' quando os discípulos - vamos dizer assim - do adolescente psicopata começa à matar mendigos e pessoas inocentes na rua. Esqueçamos por um momento a crítica social de que o governo acaba que 'deixando esses crimes pra debaixo do tapete' e se concentremos no que o ato em si representa como um todo. A violência sem motivo, baseada apenas pelo prazer sádico, é o estado de completa demência psicológica, que ainda não existe um motivo universal para que ele nasça nas pessoas, e nem a receita de uma cura perfeita. Isso comprova uma grande falha na sociedade, não só por não se importar com injustiças como deveria, mas também por não saber que são elas mesmas que criam esses monstros, e a cultivam. Nesse ponto, esse mangá se assemelha à obra literária de George Orwell juntamente com o filme de Stanley Kubrick, por usar a violência não como uma ferramenta gratuita, mas sim para questionar a sociopolítica, bem como a religião aqui nessa obra, que explicitamente cega às pessoas.   

Antes de encerrar, devo dizer que Kami no Kodomo é uma das melhores obras que li que aborda o niilismo tão bem. A narrativa em primeira pessoa de modo frio, cru, em cada página sobressalta os olhos, tamanha influência sobre o garoto. Pra quem não sabe, niilismo é uma doutrina filosófica que indica um pessimismo e ceticismo extremos perante qualquer situação ou realidade possível. Consiste na negação de todos os princípios religiosos, políticos e sociais. Esse mangá pega essa questão e a coloca na atmosfera de cada capítulo, brilhantemente.  

Enfim, não quero me estender mais. Kami no Kodomo merece ser lido por todos que possui a mente aberta. Deixo aqui então, uma frase final que só quem leu a obra entenderá. A frase é de Ivan Karamazov,  personagem do livro ''Os irmãos Karamazov'' de Dostoiévski: "Se Deus está morto, então tudo é permitido".

É isso gente. Feliz Halloween :)

Curta a Nave Bebop no Facebook e siga também no Twitter para ficar sabendo das próximas 
postagens. Muito obrigada pela visita, See you later Cowboys ... 

Nenhum comentário:

Postar um comentário