sábado, 10 de fevereiro de 2018

Ghost Hound: uma jornada surreal nas profundezas do desconhecido



por Pedro


Os mistérios do nosso mundo são tão fantásticos quanto amedrontadores. Eles são os motivos e as consequências de nossa curiosidade, crescimento individual e coletivo. Tentamos entender as coisas desde que o ser humano percebeu que ter saído do mar talvez não tivesse sido uma boa ideia. E em algum ponto a curiosidade externa se voltou a nós mesmos, e os segredos de nossa mente começaram a ser aflorados. Tão poderosa quanto os fenômenos naturais, nossa mente é tão complexa e relevante quanto a vida em si. E foi então nós nos vimos entre dois caminhos distintos, mas, intrinsecamente interligados: dois mundos repletos de incertezas e poderes, cujos quais parecem tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos, apesar de, medonhamente incontroláveis. E por mais apavorante e incerto que isso possa parecer, o ser humano nunca desistiu de tentar entender. E citando Albert Einstein: não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas.

Ghost Hound nunca havia se destacado aos meus olhos até que a Netflix apostou uma ficha nele. E eu preciso dizer que se eu fosse apostar, colocaria até mais fichas. Com o conceito original criado e desenvolvido em 1987 por ninguém menos do que o pai de Ghost in The Shell (Masamune Shirow), o anime só teve a oportunidade de ganhar vida em 2007 pelo estúdio Production I. G. (Ghost in The Shell, The End of Evangelion, xxxHolic, e mais alguns). Um mangá de 2 volumes também foi lançado no mesmo ano com o título Shinreigari: Another Side.

Tudo tem início na cidade de Suiten, uma área montanhosa da ilha de Kyushu, onde um acontecimento trágico e insolúvel acontece, marcando a vida dos moradores locais e dando visibilidade a cidade. Herdeiros de uma conhecida e respeitada família de produtores de saquê, Taro Komori e sua irmã Mizuko Komori, são sequestrados ainda crianças e um alto valor é pedido para serem libertados. Mas algo não parece certo, pois todas as tentativas de comunicação com os sequestradores acabam falhando, e mesmo com o dinheiro pronto para a troca, eles dificultam. E como nada sai como o planejado, o sequestrador é atropelado por um caminhão durante sua fuga e morre, juntamente com Mizuko, que amarrada em uma cama ao lado de seu irmão, sucumbe à negligência e à fraqueza, enquanto Taro vê toda a cena agoniante. 


11 anos depois e o garoto, agora com 14 anos, vive sob a sombra de um trauma em uma família que respira sentimentos reprimidos. Sua mãe sofre calada com o abalo e reage a qualquer menção do nome da filha, enquanto Taro não se lembra direito dos acontecimentos do sequestro, mas revive constantemente, em sonhos, as memórias do último suspiro de Mizuko. O pai, enigmático e calado, se abstrai da realidade ouvindo música, longe de todo o silêncio ensurdecedor da tragédia

No primeiro episódio, intitulado Sonho Lúcido, nos é mostrado a visão de sua irmã morta ao seu lado, e então ouvimos o som das hélices de um helicóptero vindo resgatá-los em um hospital abandonado. Logo em seguida, ele se vê voando acima da floresta, passando por cima de um templo xintoísta, e então, avista uma garota de blusa vermelha na escadaria que leva ao templo. Ela se vira, o encara por longos segundos e depois vai embora. E após isso, uma força invisível puxa sua consciência de volta ao seu corpo, fazendo com que Taro acorde no chão de seu quarto e imediatamente vá a procura de seu gravador para registrar mais uma experiência estranha em seus sonhos. Algo recorrente e que parece ser intensificado devido à sua narcolepsia. 


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E para aqueles que, assim como eu, se interessam pelos assuntos oníricos, recomendo fortemente que leiam A Arte do Sonhar, de Carlos Castaneda. É impossível não identificar algumas coisas do livro no anime.
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Há ainda personagens memoráveis e complexos que ajudam a dar forma à obra e aos mistérios. Makoto Ogami é o herdeiro da poderosa e influente seita Ogami, uma ramificação da família de Taro, que aparentemente não mantém nenhum laço com o outro lado. Ele viu o suicídio do pai, que cortou as pálpebras e depois o pescoço uma semana após as crianças sequestradas haviam sido encontradas, o que levou a polícia a considera-lo suspeito, porém, nada até então foi provado. Sua mãe o abandonou logo em seguida. Makoto é taciturno e esfíngico, como se cultivasse uma enorme raiva dentro do peito esperando o momento certo para explodir de uma só vez. Passa quase o tempo todo calado e não interage com ninguém de sua escola. Sua avó, a líder da seita, tenta convencê-lo a todo custo a treinar e se dedicar ao caminho de sua religião, porém, ele odeia ambas com todas as forças. 

Masayuki Nakagima é petulante e soberbo. Ele acaba de se mudar de Tóquio para a pequena cidade, pois seu pai trabalha para uma empresa misteriosa e que recentemente foi instalada nas redondezas. Falando incessantemente, Masayuki está sempre importunando as pessoas para coletar informações e mostra-se interessado, até demais, sobre os acontecimentos do sequestro, o que o leva, inicialmente, a ser odiado tanto por Makoto, quanto por Taro. Seu pai passa o dia todo fora de casa, enquanto sua mãe permanece todo o tempo com os olhos vidrados em um jogo de vídeo game na televisão da sala, sem nunca prestar atenção em nada mais. Em certo ponto, descobrimos que ele tem acrofobia (medo de altura) devido a um acontecimento trágico em sua antiga escola que o afetou para sempre.

Masayuki, Makoto e Taro.

Miyako Komagusu é a filha do sacerdote do templo xintoísta, e é também a menina de blusa vermelha que viu Taro enquanto ele estava fora do corpo. E apesar de não ser uma das protagonistas, seu papel é tão importante quanto. Sua vida toda foi cercada de visões e sensações de possessão. Muitas vezes, com um olhar vago e distante, ela parece estar perdida entre um caminho e outro, sem saber para onde seguir. Apesar de ser a personagem mais nova, é também a mais responsável e madura, cuidando de seu pai e dando broncas em todos. Possui personalidade forte e decidida. Seu pai a trata como se ela fosse doente, e apesar de seu importante papel como sacerdote espiritual, ele mantém uma visão bem racional e mundana de tudo, como se a espiritualidade fosse apenas um fardo.

Miyako Komagusu

Apesar de inicialmente sermos apresentados, de forma lenta, ao trauma de Taro e sua habilidade de se projetar para fora do corpo, no desenrolar da história também somos introduzidos a uma enorme teia de informações e dúvidas complexas. Algumas coisas estranhas começam a acontecer na cidade. Avistamentos de uma enorme criatura negra em um local abandonado começa a atrair os jovens mais aventureiros, enquanto Taro, Makoto e Masayuki começam a ter encontros no mundo astral, ao mesmo tempo que, um renomado psicólogo de Tóquio vem a cidade para tratar o trauma de Taro, e começa a ter visões e sensações estranhas quanto mais ele conversa e entende o menino. Em contrapartida, a empresa onde o pai de Masayuki trabalha parece estar fazendo algum estudo genético e supersecreto financiado pelo governo.

E assim como em Dirk Gently: tudo está conectado! Três crianças unidas pela tragédia e traumas de um passado do qual não tiveram culpa, mas que moldou suas vidas, descobrem em si – e nos mistérios do sobrenatural – uma oportunidade de desvendar o que realmente aconteceu naquele momento em que a vida de suas famílias mudaram para sempre. Eles veem em seus pais algo que esperam não levar para o resto de suas vidas: arrependimento. E então, agarram com todas as suas forças a responsabilidade da esperança. Como se, de uma vez por todas, tudo pudesse ser esclarecido, e por fim, usufruírem do direito de ter uma vida feliz, apoiando-se uns aos outros mesmo diante do perigo e da incerteza do que isso pode acarretar. 

Não há dia ruim e nem lugar errado para sair do corpo e ir dar um rolê em outros mundos.
O enredo transita entre a neurociência e o sobrenatural. E propositalmente nos prega peças sobre o que é real e o que não é, dando a entender que a realidade é relativa. Tudo pode ser real. Quem nós somos? E por que somos assim? O passado, o presente, os sentimentos, os ressentimentos, as dúvidas, a raiva, a aceitação de outras formas de vida, viagens astrais, locais sagrados, a sexualidade, a superação, o elo com vidas passadas e a carga psicológica que recebemos apenas por viver a vida. E o amedrontador Deus de uma só palavra...

Ghost Round tem uma premissa interessante e única. Vale a pena assistir aos seus 22 episódios e acompanhar a evolução de cada um dos seus personagens. E também vale a pena abrir a mente para as informações sobre o desconhecido e aproveitar a bela forma como foi tratada a relação do espírito com a mente. É uma obra primorosa que com certeza vai lhe agregar algo. 

Nós somos a junção de toda a complexidade do obscuro e um pouco mais. E isso nos leva a pensar: até que ponto o ser humano está disposto a ir para conseguir uma resposta? Até que ponto vale a pena ir?

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