quinta-feira, 12 de junho de 2014

Explorando a belíssima fotografia de ''5 Centímetros por Segundo''









Aaahh ... o amor ...

Eu sou fascinada por cores. E essa minha atração se expande até mesmo para com o preto e o branco. Geralmente, cores dizem muito sobre a obra. Sobre aquele momento. Isso tange para os filmes, seriados, animações, e até mesmo para os mangás. Sim, isso mesmo. O preto e o branco tem muito a falar tanto quanto uma página de aniversário do One Piece, que como vocês sabem, é bastante colorida. A iluminação do ambiente, conta muito na hora de você criar empatia pela história, e consequentemente, pelos personagens. São elas, que muitas vezes demonstram o estado de espírito da coisa. Eu costumo dizer, que se o enredo é o esqueleto, a iluminação é o rosto de toda e qualquer obra. São através delas que você consegue bisbilhotar a alma do negócio. Um pouquinho da personalidade, do estilo.

Em ''5 Centímetros por Segundo'' - obra do maravilhoso Makoto Shinkai - você consegue perceber com clareza o jogo de cores que ele utiliza para transmitir a beleza da sua história. Impossível assistir a esse filme com a cara fechada, sem esboçar nenhuma reação. Alguma coisa vai te tirar do estado de conforto, e lhe fisgar. No meu caso, eu me simpatizei mais pela fotografia do filme, do que a história em si. Não que eu não seja lá muito fã de romances, ou então não tenha gostado da história, não é exatamente isso. O fato é que estamos se tratando de uma obra de Makoto Shinkai, vou repetir; M A K O T O  S H I N K A I. Então já deve saber né, assistir a um filme dele é pedir pra levar uma surra. Uma surra de arte. E também de histórias boas, afinal quem fez mesmo aquele curta esplêndido chamado Kanojo to Kanojo no Neko, mais conhecido como Ela e o seu Gato? Ah é, Makoto. Ou seja, o cara desde sempre tem um histórico preenchido com poesia. Ele consegue fazer uma coisa simples, se tornar interessante nas telas, como foi o caso daquele curta-metragem. Desde quando é caso de vida ou morte acompanhar o que há por trás da relação entre uma menina com seu gato? a mesma coisa pergunto com relação a este filme. O que tem de tão bacana em assistir um romance entre um garoto e uma garota que não conseguem mais se ver? Qual é o ponto X?  Aí é que ta o motor do barco. O segredo da receita infalível ta na narrativa. O modo como você conta. E Makoto brinca muito com a realidade adivinhada. Um exemplo auge disso ta naquele curta. Mas, por favor não confunda isso com sensacionalismo. Em nenhum momento Makoto tenta fazer copo d'água virar cachoeira. Pelo contrário. Ele mostra a cachoeira escondida no copo d'água. A beleza mais oculta, a realidade interligando passado e futuro, transformando assim o presente, na mais perfeita sincronia, e ainda; mostrando de um jeito que convença, que empolgue, e que cresça com o passar dos minutos, como uma massa de bolo. Que por sinal, percebemos logo na primeira parte.




















Há muito ritmo ali no inicio. Primeiro, vemos já de cara, do que o filme vai se tratar. Não foi preciso muitas explicações, cenas estendidas contestando muitos detalhes, e nem mesmo o ápice foi deixado para o final ou pelo menos em sua metade. É engraçado, porque é uma coisa invertida. Eu tenho a impressão que a história começa pelo fim, pois o filme sugere seu motivo logo na primeira parte. E ao longo da segunda e terceira, só vemos a consequência do ato, como se fosse uma espécie de cena bônus. A continuação do fim.  É muito legal isso, porque Makoto sabe explorar esse tipo de narrativa muito bem, é interessante, é caso de vida ou morte, mesmo que na realidade isso não seja. Pra mim, o roteiro não tem peso, mas a forma como isso é mostrado, é genial. Mal conseguia desgrudar os olhos, porque ali tinha um algo a mais, um imã. 

Mas, voltando ao foco. Agora me dei conta de que falei, e falei, e até agora não contei sobre o que é a história. Pois bem, pra quem leu até aqui e se encontra boiando em alto mar, 5 Centímetro por Segundo é um filme em formato de 3 compilações, “Cherry Blossom Story” (桜花抄): Tono Takaki (Mizuhashi) e Shinohara Akari (Kondo). A história é a seguinte: Takaki e Akari são dois jovens que se conhecem na escola primária e acabam se tornando muito amigos. Mas ela, Akari, teve de se mudar com a família para uma região longe de Tóquio. Os dois continuam a trocar correspondência, e um dia, é o Takaki que tem que se mudar – para Tagoshima, uma ilha situada no Oeste do Japão. Takaki decidi ver Akari pela última vez, empreendendo uma longa viagem de comboio até Tochigi.

Na segunda parte, “Cosmonaut” (コスモナウト): Anos depois, em Kagoshima, Sumita Kanae (Hanamura) está apaixonada por Takaki, colega dela, mas este parece ter a mente sempre num local distante. Além de se sentir deprimida por não ser, aparentemente, correspondida, Kanae está indecisa em relação ao seu futuro, adiando a escolha do curso universitário.
Na terceira parte, ''Shinohara Akari'' (Kondo): De volta a Tóquio, Takaki, agora adulto, debate-se com melancólicas memórias do passado e entra em ruptura com as suas relações sentimentais e laborais. Akari está em Tochigi e prepara-se para viajar.

Bom, a história contada meio que por cima é isso. Agora vamos as impressões pessoais e detalhes técnicos. Texto a seguir contém pequenos spoilers, leia por sua conta e risco. Caso o contrário, pule para o final do post.




Como estava dizendo antes, os 26 minutos da animação possui muito ritmo, mas não porque conta a sua causa logo no começo, mas sim pelas coisas acontecerem de um jeito tão impactante. Envolvente. Eu que havia achado aquele sentimento ali entre os dois tão forçadinho, comecei a fazer cara feia, afinal odeio ser enganada com histórias de romance. Muitas vezes, já vi autores apelando para um drama exagerado sem necessidade nenhuma, tudo pra manipular a atenção, com um falso sentimentalismo. Porém, a minha cara feia vai mudando com o passar de certos detalhes. A química ali entre os dois personagens é tão intensa, que um simples flashback entre os dois, já é o suficiente pra fazer com que eu goste deles. Aquele sentimento ali não é bobo e nem sem sentido, pelo contrário, é puro, e inocente. É um desejo natural, aquele de não querer perder o contato. Com o passar das cenas, começo a ficar apreensiva e medrosa, como se eu realmente fizesse parte do romance. ''- Poxa, fiquem juntos logo Porfavooorr... '' eu pensava. E isso não acontecia. Me dava um nervoso, só que não de raiva, mas de ansiedade por eles. Os minutos vão passando, e de repente, me deparo com uma das cenas mais lindas de todo o filme. O grande beijo. Pera ... mais isso não tinha que só acontecer no final? Sim! É por isso que eu disse que o filme começa pelo fim. Porque o final, como puderam ver, foi trágico. Não houve um desfecho feliz. Esse momento não foi um dos mais lindos só porquê os dois se beijaram .. ''Uhuull.. ai que lindo, ai que romântico, ai que badalo, ai que tudoooo.. '' (risos) PORRA, NÃO! Aquela cena foi o ápice de tudo aquilo que havia sendo construído ate então, foi a explosão, e vou explicar porque. 

Primeiro a cena retrata um ambiente extremamente frio, até em termos simbólicos. Takagi havia sim demonstrado o seu sentimento por ela muitas vezes, como naquela hora em que Akari esta dentro de sua sala de aula, e encontra as gozações de seus colegas de classe rabiscados na lousa, e vendo tudo aquilo, ele sem pensar duas vezes, entra na sala apaga a lousa e a pega pela mão e a tira do meio deles. Poxa, fofinho. Mas nada comparado ao beijo. Pois tudo aquilo foi muito representativo, em termos de história, de clima, e de arte. De história, porquê tudo que estava sendo construído até então, era de maneira muito fofinha, bonitinha e nada mais. Dois jovens que se gostam muito, e que se entendem. O que torna verdadeiramente interessante, é que, eles não sabem se expressar carinhosamente na frente um do outro, e isso você percebe nitidamente só pela troca de cartas. Tudo bem que era por causa da distância, entretanto, quando tiveram a oportunidade de dizer pessoalmente coisas muito mais íntimas do que um simples comentário aleatório, não aproveitaram como deveria. E pra ficar pior, Takagi teve o azar de perder sua carta, e mesmo assim, não conseguiu nem sequer tocar no assunto com ela, nem ao menos mencionar que a perdeu. Akari por sua vez, nem conseguiu entregar a sua. Por fim, isso deu consequências graves no futuro, porém, comentarei sobre isso mais pra frente. Pra resumo da ópera; o que aconteceu? sentimentos reprimidos. Palavras perdidas. O mais legal de tudo, é a hora em que de deparam com a árvore morta, que é o grande símbolo do amor entre eles. Nesse momento vem a cena mais linda do filme. Não basta a neve caindo, representando o frio (não só de temperatura como também de frieza pessoal), ainda temos um contraste maravilhoso em seguida, mostrando de forma crua uma ocasional extremamente paradoxal entre tristeza e alegria, frases emocionais do Takagi ainda por cima completam ainda mais aquele momento. Ele se viu naquele instante tomado por uma tristeza imensurável, gigantesca, pois sabia que não podia ficar junto para sempre com ela. E ainda de bônus, temos um belíssimo contraste com a cerejeira tomada por lindas flores, que como é explicado logo no início, é o lugar onde marcou muito a infância deles. Bom, depois disso, fui totalmente convertida. O significado de tudo aquilo foi totalmente convincente, não era só uma mera história de casalzinho apaixonado como pensava que fosse. Havia sentimento, havia verdade, havia uma dor silenciosa. Impossível não dar o braço a torcer.

E como eu disse antes, não basta ser uma cena linda em termos de história. Ela também esta carregada de simplicidade, de clima, e de arte. De clima porque, os personagens ali se completam. Há química. Mesmo não conseguindo se expressarem com deveria, os dois se comovem com o ambiente onde estão, e trocam um beijo caloroso. Debaixo de uma árvore morta. Enquanto, o ato fala, em suas mentes fica rodando a lembrança da cerejeira cheia de vida. E pra completar, a arte, por sua vez, dá um show á parte. O cenário coberto pela neve que cai, dá com eficácia o tom melancólico que casa completamente com o que esta sendo dito. Aaaiii..... meu coração. ='(



















                                                                                                     

Na segunda parte, o amor platônico é a bola da vez. Takaki sofre explicitamente a falta de Akari, e nem sequer percebe as coisas em sua volta, como por exemplo, a sua colega de escola, a jovem Sumida. Guardando um amor reprimido pelo Takaki, ela sofre muito com a seu distanciamento. Enquanto ele fica com a cabeça no mundo da lua, e Akari em cima do muro, naquela de ''conto ou não conto''; todos os lugares em que passam, são verdadeiras obras de arte. Não só por Makoto retratar tudo ali de maneira muito bonita, aquilo está tão bem construído/desenhado que passa a ter uma realidade fora do comum para ser só uma simples animação. E não é exagero, você que viu sabe exatamente do que estou falando. A câmera foca a todo momento pequenas coisas do dia á dia deles, como por exemplo, naquela hora em que o ângulo da imagem aumentava dentro do supermercado onde sempre iam, e no meio de tantas opções, Takaki sempre escolhia o mesmo café, simbolizando assim sua falta de interesse em gostar de coisas novas. Fora isso, teve muitos outros detalhes bem significativos para a trama, como o close nos pássaros, nas estrelas, o tom do céu as vezes num tom azulado remetendo assim á solidão, e a luz do sol numa cor meio alaranjada, e noutras até meio parda, remetendo assim um ambiente nostálgico. 

Me desculpe a palavra, mas, Takaki ta muito bundão nessa parte. Não que isso seja ruim, no entanto, isso se torna tão óbvio, mais tão óbvio, que você não se conforma que Akari não caia na real. Até cai, mas demora muito pra isso. Quando finalmente decide se declarar, o fracasso ta mais que certo. Takaki ainda vive no passado, com a cabeça sempre cheia de lembranças, e mal percebe quando ela começa a chorar em uma de suas voltas da escola.  Não é preciso não mais que uma espécie de foguete surgir no céu, para retomar em seus pensamentos, e esquecer novamente das coisas em sua volta. 



Na terceira parte, Takaki agora é um adulto, formado na faculdade, com um bom emprego, porém, continua vivendo no passado. Só que, somente isso ainda não basta, agora, temos a consequência de tudo aquilo que não disse e que não aproveitou. A saudade se transforma em dor de uma vez por todas, e acaba se demitindo do  trabalho. Na última cena, Takaki esta caminhando pela rua e de relance vê o amor de sua vida, ambos param, só que o trem que passa ali naquele momento impede a visão um do outro. Por fim, os seus olhares definitivamente não se cruzam, pois Akari não o espera. A retratação perfeita de que ela seguiu em frente, e ele ... 

Bom, rever sua amada apenas que por um instante, o faz cair em si de que seguir em frente é preciso.... e necessário. 
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Resumindo, posso definir ''5 Centímetros por Segundo'' como o filme mais real do que a própria realidade, pelo tamanho detalhismo contido do começo ao fim, como também pela grande dramaticidade nítida em cada um dos seus personagens. É de cegar os olhos. Essa é a prova, de que Makoto Shinkai pode construir qualquer coisa em sua animações, pois seu trabalho consegue captar com perfeição os mínimos detalhes, que ficam perdidos em meio a correria do dia. Outra coisa que não poderia deixar de comentar é a maravilhosa trilha sonora, que inclusive encerra a obra de forma magistral, com uma linda canção do Masayoshi Yamazaki, ''One more time,One more chance''. O poder das letras carrega as cenas finais para um momento poderoso, cheio de significados, e lindamente comovente.



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