sexta-feira, 22 de março de 2019

Perfect Blue: o vermelho do abuso e a despersonalização (spoilers)



Disperso. Confuso. Incongruente. Uma crônica sobre a gradativa perda de noção da realidade como também, o culto exacerbado à imagem, Perfect Blue, de Satoshi Kon, nos entrega uma análise profunda da personalidade de Mima, uma cantora pop, ou uma Idol, a qual tenta se desvencilhar de sua persona 'maculada' e 'infantil', e assim, embarcar em uma complexa e multifacetada jornada a fim de entender a profundidade da sua identidade.
Perfect Blue, nos apresentado em 1997, em um tom de conto moderno, narra a história de Mima após cansar-se da vida de cantora pop, decide traçar uma destino mais certo e mais 'maduro', escolhendo, assim, a atuação. No entanto, sua escolha não é bem vista por seus fãs, fervorosos e hostis, acaba sendo perseguida e julgada por todos os lados, em relação a atitudes que deve ou não tomar, nossa protagonista entra numa espiral profunda e abissal de pressões, expectativas, como também, em um profundo desgaste mental e emocional.
Ademais, inicialmente e análogo à nossa contemporaneidade, Perfect Blue é aterrorizante. A primeira tomada do filme não é focado especificamente em Mima como indivíduo, mas sim na imagem construída por seus fãs, em como eles encaram as decisões feitas pela mesma, e de como reagem ao terem sua 'fantasia' desfalcada, e perceberam a autonomia de Mima. Reagem com ódio; reagem com raiva e principalmente, como se tivessem perdido ''posse'' de Mima. Sensação a qual é personificada e representada por diversos personagens, porém, inicialmente pelo Me-Mania. Um fã abusivo, obsessivo e agressivo. O mesmo a vê como mero objeto para satisfazer seus mais depravados e erráticos devaneios, não aceitando ações que vão contra a perfeita representação de sua musa em sua mente. Tendo a ideia de que, ao aceitar o papel como atriz, maculou e deturpou a si mesma, contrariando a interpretação de Me-Mania tinha acerca dela, levando à tentativa de estupro, achando que ao fazer isso, estaria 'libertando' a verdadeira Mima.

Por isso, o filme mostra-se tão assustador. Fãs com sentimento de posse para com seus ídolos, e assim impondo suas vontades aos seus ídolos, cercando cada milimetro da vida deles pode acabar gerando a fragmentação e esvaziamento da personalidades nos mesmos (além da própria perde da noção de individualidade e privacidade), tal como posto em PB, e também junto à construção de uma imagem maculada e pura, os fãs apenas enxergam seus ídolos como seres quase divinizado. Idols, artistas, pessoas ficam a mercê de vontade alheias, completamente vitimizados e sem vontade própria. Tal sensação de terror é verossímil e latente em dias como hoje, em que idols, no Japão, são esfaqueadas, precisam pedir desculpas simplesmente por serem o que são, seres humanos normais. Namoram, transam, vão ao mercado comprar leite, vivem. Além disso, ironicamente e paradoxalmente, a própria música cantada pelo grupo parece validar/incentivar tal atitude:
“Alguma pergunta sobre seu amor? Chore por ajuda e espere um pouco. O amor faz com que seu coração palpite. Se significa que é amado no fim… Seja mais agressivo… Porque você terá uma chance. O anjo do amor sorri por você.''
O filme desnuda Mima até o âmago, mostra uma mente débil e fragilizada pela exposição de sua imagem, pelas expectativas impostas à ela e pela sua própria interpretação de si mesma. O filme transita entre o “real” e o “sonho”, misturado-os. Havendo transições entre espaço e tempo; entre sonho e realidade, denotando a dissociação e a confusão sobre a veracidade, sobre o que está ocorrendo. Diversos momentos, a incongruência, a subjetividade estão pairando na direção, ilustrando a gradativa perda da realidade de nossa protagonista, simbolizando sua mente cansada e desvairada. Enganado-nos, fazendo-nos questionar se o que vemos é real, se Mima é real, ou apenas está alucinando, ou simplesmente vivendo uma personagem de uma série. Tempo e espaço parecem misturar-se, aos poucos, a linha divisória vai sumindo, tornando-se cada vez mais tênue, ela estava nesse quarto antes? Ela já não havia feito essa cena? Ela está atuando... ou vivendo essa situação? Diversos questionamentos surgem. Salientando ainda que, o diretor de fotografia é o mesmo de Neon Genesis Evangelion, o que acaba soando bem interessante. Uma vez que há diversos momentos tanto em Eva quanto em PB, em que há uma dissociação da realidade, isto é, tanto um distanciamento do que é real ou não quanto a existência da troca latente entre o real e o imaginário.
Além disso, a própria noção de vida pública e privada se distorcem para a personagem. Uma hora vive normalmente, noutra está atuando, sem nunca haver uma distinção clara onde quando uma acaba e a outra termina. Havendo, também, a expectativa de outrem sobre ela, de seus agentes, de seu público, ditando como deveria agir, como deveria seguir com sua vida. Dada dinâmica de controle sobre a Mima é representada em uma belíssimo plano de Mima entre seus agentes, com ambos refletidos no espelho, denotando quase como se ambos estivessem na mente da protagonista, tomando as decisões por ela, e ela ali no meio, acanhada, acuada e ignorada, a protagonista como uma coadjuvante em sua vida, sem controle de suas próprias ações e pensamentos.
Para além dos agentes, do Me-Mamia, há outro fator o qual se desdobra como uma pressão para nossa personagem principal, uma ilusão de Mima como idol. A qual aparece inicialmente em espelhos, denotando como se estivesse presa em um mundo ilusório, porém ainda em contato com o real. Tal ilusão sempre se coloca como uma voz interior, um 'deep inside' sempre ali acusando-a, dizendo que Mima estaria seguindo o rumo errado de sua vida além de uma ser uma lembrança, uma fantasma do passado. No entanto, ultrapassando, sobretudo, o fator citado anterior, da pressão, a ilusão Idol é um dos alicerces para o processo de despersonalização da protagonista. Ao vê-la em cada canto, ouvi-la, e pior, se reconhecer ali, Mima começa a questionar-se: quem ela mesma seria, se ela seria real ou ilusão, afinal, uma ilusão parece tão viva e tão autônoma quanto ela, o que acaba ficando pior, uma vez que tal ilusão se desprende dos espelhos. Saindo do mundo imaginário para o real. Junto a isso, há Rumi Hidaka. Agente, melhor amiga de personagem principal. Inicialmente mostrada como apenas uma amiga preocupada com a carreira de sua amiga, a agente soa totalmente empática e simpática à Mima, chorando ao ver a cena de estupro, sempre tentando afastá-la desse mundo maculado e errado da atuação. 
Contudo, Rumi não é diferente de outros fãs. Em meios à quartos semelhantes, porém sutilmente diferentes, peixes mortos e a perda da noção de espaço/tempo, sua melhor amiga tentou se apoderar de seu 'eu'. A melhor amiga, igualmente ao Me-Mania, também enraiveceu. Observamos que em meios aos loopings, supressão de identidade, insensatez e paranoia, Rumi estava a se apoderar e se apossar da identidade de sua melhor amiga, roubando aos poucos, fazendo-a achar que fez o que não; que matou; que não é mais quem é, e pior, que não merece ser quem é. Rumi, como o vilão de Double Bind, arrancava a pele de suas vítimas, adentrava em sua mente e alma, sugando para si e sendo o 'eu' da vítima. Até interessante apontar que ao chorar na cena em que Mima simula um estupro para o episódo de Double Bind, ela estava chorando por si mesma, não por Mima, pois sentia que aquela fora feita com ela mesma, afinal, ela achava que era Mima, a verdadeira.
Como já dito pelo diretor, Satoshi Kon, em uma entrevista (a qual deixarei uma tradução livre abaixo), Perfect Blue é sobre a perca da noção da realidade, bem como a criação e a estruturação de sua própria identidade. Mima parece dividir-se entre ser atriz, idol e apenas uma moça normal a qual se preocupa com seus peixes, faz compras. No entanto, essas personalidades parecem chocar-se, entrando num conflito dentro da mesma, sem harmonia, sem relação. Uma tentando sobrepujar a outra, além de causar questionamentos acerca de qual é a verdade, qual irá triunfar. A partir da tensão entre a musa espalhafatosa cheia de fãs, uma atriz fazendo papel de uma sociopata com transtorno de identidade e a pessoa normal, a qual lida com pressões e abusos de outros, surge a euforia, o medo, a ansiedade o pânico da sensação de fragmentação, em que aos poucos ela parece subtrair-se, fechar em si mesma, perdendo a noção do que é o quê; quem é quem, totalmente insossa e perdida nessa maré de dúvidas e pretensões em relação à personalidade, realidade e a 'verdade'. 

Cada personalidade há um background, um cenário. A atriz atuando na série Double Bind cria quase um labirinto metafórico e metalinguístico sobre a jornada de Mima, salientando as dissociações e quebras de identidade, se podemos ser mais de uma pessoa; se podemos nos apoderar de um outro 'eu', que não o nosso. Além, é claro, da idol sendo perseguida, usada e constantemente abusada. E por fim, a moça normal, vivendo com choque de personalidades e com as expectativas dos outros.
Acrescentando ainda, o vermelho, representando o macular. Sempre que o desgaste mental, o desalento parecem chegar, há o vermelho, representando o sangue, o pânico, perigo. Os quais aos poucos vão corrompendo a sanidade e a mente de Mima; ocorrendo o distanciamento da realidade, a perda de identidade, o sentimento de perseguição, sempre com a sensação de estar sendo invadida, substituída e até ''usurpada''. O que faz contraste com o azul, a chuva, a sensação de calmaria o qual permeia toda a obra, o que causa uma dissociação, já que o vermelho é pungente, se destaca tal qual a violência contida no filme. Sendo principalmente psicológica além de física, a agressividade toma um tom de transgressão e da quebra da calma, do indivíduo, como também, sempre havendo uma insinuação de abuso. Sendo sempre exposta, vivendo numa sensação invasão, exposição, sentindo-se nua, exposta ao olhares alheios, vontade alheias, o vermelho é violação.



Passando por níveis e níveis de desgaste mental, desde simular um estupro até pensar que assassinou alguém, podemos ver o sangue, o vermelho macular sua persona e sua mente. Quase como se estivesse saindo de sua própria mente e tendo o seu 'eu' retirada de si, sentindo a mesmice e as repetições adentrarem, como também a sensação do tato sumir, os sentidos se misturarem. Mima se vê tortuosa, simulando a si mesma. Mima, em Perfect Blue, em meios aos abusos, as insinuações de invasão e a invasão propriamente dita, sente-se confusa até em se olhar no espelho e ver outros, que não ela. No entanto, ao se defrontar com ilusões de si mesma, com indivíduos tentando roubar o 'eu' dela e ver outros os quais acham donos dela, conseguiu se encontrar meio à multidão dentro de si, em meio as pressões, expectativas como também as múltiplas personas, quer idol, quer atriz, quer pessoa 'normal'. Em meio aos vermelho violento, incongruente e imperfeito, em meio a tantas pessoas, numa chuva torrencial, em um azul perfeito, conseguiu encontrar a si mesma, olhar no espelho e ver apenas ela, somente ela.

Indicando duas músicas que me remeteram a Perfect Blue, uma óbvia, a outra nem tanto.
Parte da entrevista:
Entrevistador: Há uma mensagem que você tentou transmitir através do filme?
Satoshi Kon: Uma mensagem? Bem, eu não tenho certeza se há alguma coisa em particular, possivelmente seria ’‘perder a noção da realidade”. É difícil de explicar, mas como eu disse antes, as imagens reais e as imaginárias vem e vão rapidamente no filme. Quando você está assistindo o filme, algumas vezes você sente como se estivesse perdendo a si mesmo independente do mundo que você esteja, seja imaginário ou real. Mas depois de ir e voltar entre o mundo imaginário e real, você ocasionalmente consegue achar sua própria identidade através da sua própria capacidade. Ninguém pode ajudá-lo nisso. Você com certeza é a única pessoa que pode achar de verdade um lugar onde você sente que pertence. Essa é a essência, é todo o conceito. É bastante difícil de explicar. Uma pequena coisa em sua vida leva a outra e as coisas começam a desmoronar. Você se concentra em superar os obstáculos em sua vida. Então você possivelmente começa a questionar sua existência e a começar uma jornada de experiências na sua vida. Então você começa a sentir a sensação de identidade própria e percebe o que é que há no mundo para você conquistar. 

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