quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Distância emocional e o escapismo em SSSS. Gridman






CONTERÁ SPOILERS 


 Arquitetado pela nossa querida Trigger, a qual nos trouxe famosos animes como Kill la Kill e Darling in the FranXX e tendo como diretor de Inferno Cop, Akira Amemiya, SSSS. Gridman em um tom de louvor ao antigo Tokusatsu dos anos 90 de mesmo nome, conta a história de Hibiki Yuuta, um garoto do ensino médio que acaba por acorda na casa de sua colega de escola,Rikka, sem memória alguma de seu passado, ao acordar é único que capaz de ver Kaijus de pedra pairando sobre a cidade e a partir de um computador antigo, consegue conversar com Gridman que tem lhe dá uma única missão: salvar esta cidade de um perigo iminente. A partir disso, embarcamo-nos em uma narrativa sobre distância emocional, escapismo e conexões.

 Isto posto, SSSS. Gridman pode ser facilmente dividido em duas partes e tons distintos, o primeiro é delineado pela parte da ação, das explosões, com cores vivas, gritos, isto é, seria o tom Tokusatsu; já a segunda parte é intimista, com planos chapados, ângulos e planos que sempre denotam incomunicabilidade, ausências e isolamentos. Dada parte é o brilho de Gridman, e não é apenas pelos planos e ângulos, mas também pela própria ação e não-ação de personagens que esboçam a temática da série, de esquivar-se da comunicação, seja evitar de dar algumas informações que possam gerar conflito; abrir o coração para pedir desculpas ou dizer que sente algo por alguém; a falta de comunicação e a dificuldade em se expressar se instaura por toda obra. E partir desse vão entre os personagens, dessa distância que os conflitos vão se instaurando, a busca pelo próximo, pelo vínculo, pela conexão, a qual é esboçado primariamente pela suposta vilã do anime.

 Akane Shinjo, por assim dizer, é a problemática e o cerne de SSSS. Gridman, primeiramente posta como uma antagonista, que mata pessoas por mera futilidade, continuamente despreza Anti por considerá-lo uma falha e que tenta construir e destruir esse mundo sem preocupar com os efeitos que tal prática poderá causar em outros, esconde o quão destruída está por dentro. Toda essa bravata egoísta e apática não é nada além de uma tentativa de esconder uma profunda cicatriz, uma dor fantasma que a personagem carrega, a solidão. O celular e o óculos quebrado, o quarto enfestado por lixo com uma luz artificial e diversas modelagens de Kaiju, (que em suma, não são nada mais que representações físicas de suas emoções negativas, como ódio, raiva) revelam essa faceta autodestrutiva e quebrada de Akane, que incapaz de conviver com as problemáticas e dificuldades que há em si nos relacionamentos, recusa, destrói e desvia o olhar para qualquer aparente defeito e, principalmente, isola-se do mundo real. Ao se isolar do mundo real, criando um simulacro da realidade, Shinjo age como uma forma de resistência, curar-se desse provável mundo, o que daria para criar uma analogia entre o paradigma sócio-antropológico de Isekai e SSSS. Gridman.





 Primeiramente, um dos cernes do Isekai é a questão do escapismo, podendo ser tanto extra, em que é a relação do leitor/telespectador de fugir de sua própria realidade. O que remonta a toda uma dinâmica e cultura otaku  no Japão, em que indivíduos sentem mais 'realidade' na ficção do que na própria realidade, que não os satisfaz; sentindo a necessidade de submergir na ficção, escapar da realidade. Tais indivíduos sentem-se impotentes e sem ação dentro da sociedade, no entanto,  seus vícios, como o anime, são a sua única escapatória das mazelas da sua vida, do fato de se sentirem à margem da sociedade. Tal questão é muito bem abordada no mangá-documentário, Virgem Depois dos 30 e no livro Otakus: filhos do virtual, porém toda essa questão já dá um artigo por si só, então vamos seguir. Nisso, há a questão intranarrativa, que seria os próprios personagens do enredo, no caso, a nossa Akane; ao estar escapando do mundo real, criando um simulacro, uma copia ideal de seu mundo. Dada ação não seria vista como uma covardia, mas sim uma resistência ao mundo, que se configura incerto e cruel. O irreal aqui, a criação de um mundo falso, seria, por assim dizer, mais tangível e interessante que a realidade em si, que cruel e vazia, não tendo nada a oferecer, além de emoções e sentimentos negativos. Há, também, toda a questão acerca do 'controle', do 'poder' que a protagonista teria nesse mundo, uma vez que no mundo original, a mesma não teria poder algum de agência.  Por tais razões, o escapismo, essa substituição e fuga da realidade, seira uma forma de cura, uma forma de recuperação das feridas emocionais de Akane, que solitária e deslocada do mundo, estaria a todo custo, forjar um mundo mais acolhedor e perfeito.

 O que é perfeito ou não desdobra-se na maneira a qual ela constrói e destrói esse mundo, em um dos episódios finais, Akane põe nosso três protagonistas e a si mesma em um sonho, um futuro ideal que deveria ocorrer. Nessa devaneio, Rikka seria sua melhor amiga e companheira; Yuuta seria seria namorado e Utsumi seria quem ela poderia dividir seu fascínio por Kaijus. Cada detalhe desse sonho pode revelar cada carência e ausência sentida na vida de Shinjo, sobre tudo. A necessidade de uma relação próxima, que possa confessar segredos; um namorado pra ter aquela relação romântica e íntima e um amigo pra compartilhar. Com isso, os Kaijus não são apenas representações físicas das emoções negativas, mas também um desejo de poder, afinal, são criaturas destrutivas e podem acabar com uma escola que alguém não gosta, matar uma pessoa irritante. Além disso, Kaijus são, em tese, monstros, seres marginais (claro, todos gostam do godzilla, mas vamo seguindo) que são visto com desprezo, seres sem valor e, principalmente, não-humanos, o que entra a figurinha de Anti.

 Anti é uma criação de Akane, um Kaiju em forma humana, que tem como principal objetivo destruir Gridman. Anti é agressivo, comporta-se sempre com grunhidos e desejos de violência, grande parte da sua evolução é se tornar humano, tornar Gridman, Parte da evolução de Anti é um quadro geral da relação humano-monstro que perpassa toda obra, até onde ambos são distinguíveis, o que faz um não ser o outro? Dotado de violência e gritos, Anti, aos poucos, vai demonstrando compaixão, vai criando laços e entendendo que o seu ponto não é atacar, mas sim defender; não é desconstruir, mas sim construir. Anti é a representação da temática da cura em SSSS. Gridman, que há chances para mudança, para curar feridas, para transformações. 

 



 Além disso, não é apenas em Akane que o foco do conflito se desenrola, mas em Rikka também, uma pessoa distante e com sérios problemas de comunicação. Em diversos quadros do anime, vemos Rikka Takarada longe de outros personagens, sempre com objetos ou linhas em sua frente, o que mostra como o espaço dita e revela sobre a personagem. Um vazio, um vão, uma distância não apenas física, mas emocional, algo que interfere, que a incomoda. Uma das representações dessa relação entre distância-proximidade emocional é a questão do celular. Celular é comunicação. Usamos-o para nos conectar com pessoas e/ou informações, entrar em fóruns, trocar mensagens, o que for. É hoje, no século XXI, que temos as redes sociais, um antro, uma rede de comunicação, um amontoado de pessoas isoladas em seu próprio mundo, que tentam criar algum tipo de conexão com o que quer que seja, amigos virtuais, indivíduos que fazem vídeos. Com isso, há uma parte em específico em que Takarada recusa ligar para Yuuta a fim de dar uma informação, já que ela se coloca nesse lugar, com emolduras envolta, recusando contato. Contudo, é a partir de Rikka que temos uma questão de comunicação através do diálogo e não da violência.

 O resto do grupo quer impedir Akane por meio de violência, forçá-la a parar, porém, Rikka considera Akane como amiga, e questiona o grupo se essa seria a maneira correta a agir. Nesse contexto, uma personagem que sempre criou meios de se distanciar e colocou-se dentro de uma redoma, é a primeira a questionar a violência que substitui o diálogo. Algo que a própria Akane faz, de formas diretas, mas em uma cena em que ela joga o seu celular, quebrado, em Anti, recusando de todas as formas quaisquer comunicação, restando apenas a recusa, o grito e a raiva.

 Por fim, Akane e Rikka representam o centro emocional e temático de Gridman, cura e conexão. Ambas envolvem-se como amigas, em uma ajuda mútua, em que Rikka entende a necessidade de criar laços, de criar pontes e não muros; de aproximar-se e não continuar na distância, incapaz de se expressar, de falar sobre o que sente, já que os sentimentos dela, o que ela quer fazer, importa. E ela se importa com as pessoas à volta dela, se importa como estão, com quem ela faz essa conexão, como a Akane. Que presa em seu próprio mundo ideal, que mais a tortura do que cura, que apenas mostra o seu ódio por si mesmo, gera apenas escapismo que gera mais escapismo, mais dores fantasmas, pois ao esconder a dor, ela não some, apenas fica ali, reprimida, piorando, como veneno. Nisso, Akane, em seu pedido desesperado gripo por socorro, consegue despertar e entender que não é a partir de ilusões e tentativas de criar uma perfeição inexiste que irá se curar, mas sim de lações, conexões.






BIBLIOGRAFIA:
https://twitter.com/vladschuler/status/1015396280036724743 (usando thread de tt como fonte, é isso memo)



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