quinta-feira, 30 de julho de 2015

Ikiru (1952) - O Filme do Akira Kurosawa Que Mudou Minha Vida






















Kanji Watanabe é um velho burocrata que descobre que tem câncer no estômago. Com a estimativa de 6 messes de vida, Watanabe irá buscar o significado de sua existência.

Não teve jeito. Precisei abrir uma exceção para comentar em particular este filme do Akira Kurosawa. Para alguns, Ikiru é o melhor filme da filmografia do diretor, pois nele se nota um olhar multifacetado da vida e de suas perspectivas, representada por um homem repleto de conflitos e indagações. Vencedor do prêmio Lobo de Ouro no Festival de Cinema de Bucareste, em 1953 e também do Prêmio Especial do Senado no Festival de Berlim em 1954, Ikiru foi inspirado em parte pela novela do Liev Tolstói de 1886, A Morte de Ivan Ilitch, livro este que estou caçando por aí para lê-lo. É considerado uma das obras mais comoventes e mais pungentes da literatura universal, para muitos, o melhor do Tolstói. Ikiru semelhantemente retrata a vida e a morte, antes e durante. O formulário é completamente distinto, mas as provocações que a vida impõe para eles, são as mesmas; qual o significado de tudo o que fizeram até agora?    

Certamente, essa busca por respostas nos traz a uma linda história comovente, que nos induz a refletir sobre nós mesmos, e o quanto a vida é ligeiramente curta. 

Kanji Watanabe é o protagonista interpretado por Takashi Shimura, o cara que firmou durante toda a sua carreira uma parceria bastante fiel com o Akira Kurosawa. Porém, a maioria como coadjuvante. Cada cena me fez pensar no quanto essa escolha do Kurosawa foi precisamente acertada, e bem escolhida. Basta reparar no olhar assustado ou no sorriso ingênuo do seu personagem para ver o quanto os sentimentos estão impostos com sinceridade. Eu não sei se de fato Ikiru é o melhor filme do Akira Kurosawa, mas que este filme é um presente para a trajetória do Takashi Shimura como ator, isso eu não tenho a menor dúvida. Seu personagem Kanji Watanabe é um marco para o cinema do Japão e talvez também do cinema mundial, pois seus valores continuam intactos, e sua mensagem é de abalar qualquer um.

Curiosamente, o engajamento que os rumos vão tomando aos poucos, é um grande convite para refletir e filosofar. Cada fala, abre espaço para debater o passado e pensar no depois. O presente do Watanabe é lapidado por um ângulo estritamente intimista e confrontador. Não tem como não criar laços emocionais e afetivos com o personagem. O mais bacana de tudo é conseguir se sentir na pele dele. Morrer é uma causa natural, independente do meio pela qual se sucede, mas conseguir através de falas, gestos e olhares a façanha de fazer se identificar com a tragédia que é se dar conta do valor da vida, é de um impacto redobrado.

Imensamente sensível. A linguagem da obra faz parte do time daqueles que mostram a dor emocional por um ângulo intimista, sem parecer mega dramático. Se trata sim de uma história triste, no entanto, eu não pude ver nela àquela forçação de barra, o acontecimento por si só, já chama a atenção pela verossimilhança.  






















Já é um grande feito se dar conta do significado de todas as coisas feitas em vida, agora, buscar uma forma de se redimir, aumenta o grau de profundidade das coisas. Renascer. A busca pela intensidade, coloca o protagonista no mais alto patamar. Ao longo do processo percebe uma infinidade de emoções que vão sendo expostas gradativamente, sem o menor pudor. Digo e repito: sem parecer forçado. Algo que contribui com que a realidade criada seja bastante realista com a nossa, é o fato de que, o Watanabe tenta encontrar a plenitude da satisfação e da felicidade através de erros e acertos. Primeiro, se nota quando dá voz ao seu lado infantil e insensato quando ele some de casa, e vive em bares e festas de sua cidade. Beber não foi a atitude adequada para conseguir um significado para tudo, pelo contrário, foi uma escolha de fuga, e não de enfrentamento. Watanabe continuou infeliz e vazio.

Ao longo do caminho, Kanji Watanabe fica cada vez mais adoentado, por culpa da doença. Isso teve o seu lado bom e o seu lado ruim. Ao mesmo tempo que as dores fazia com que sentisse mais vivo, ela também o fazia ser notado pelas pessoas. Seu afastamento do trabalho que dedicou toda a sua vida, suas atitudes consideradas depravadas, e sua aparência de cansado, fazia um reverenciamento para ele. Pra quem sempre passou despercebido, Watanabe estava finalmente sendo notado. Mas, não era exatamente dessa maneira que ele gostaria de ser lembrado. Não pela morte repentina, nem pela herança que deixaria para seu filho, mas pelas coisas boas que produziu em vida. E é aí que estava a raiz dos males. Watanabe não tinha feito nada que pudesse ser digna de lembranças. Pois sua vida foi desperdiçada em puro trabalho ''escravo''. 

Foi a partir daí, que a narrativa do filme muda. Vi muita gente falando mal desse final, porque o Akira Kurosawa deu uma guinada bruta nos rumos da história, e isso meio que quebrou o 'clima que estava sendo construído' até então. No começo, também senti esse baque bruto, mas conforme as coisas vão avançando, eu me acostumei novamente com a ideia. Porque a vida também é justamente isso. Feita de reviravoltas e momentos inesperados. Tudo é questão de costume. Ikiru deixa no término não só uma mensagem bonita de redenção, mas também uma forte crítica ao sistema burocrático do Japão e ao esquema público. Fora que ele possui ainda uma das cenas mas lindas que eu já vi até agora, que se você assistir, vai sacar do que eu estou falando na hora.






















Enfim, eu sabia que eu me depararia com um belo filme, talvez não só por se tratar da autoria do Akira Kurosawa, como também pelo tema que ele apresentava, porém, eu não sabia que eu iria me surpreender tanto, e me chocar. Com certeza, é um filme que mudou minha vida. Foi um grande tapa na cara. Às vezes, uma obra dessas nos faz renascer. 
       ____________________________________________________________________________

Siga o blog no Twitter, curta a página no Facebook. Obrigada pela companhia, até breve!

Nenhum comentário:

Postar um comentário