quinta-feira, 1 de março de 2018

Devilman Crybaby, O Clássico Repaginado

Um pouco atrasada como sempre, mas foda-se.

Se me perguntarem qual anime antigo merecia uma versão atual, eu certamente, não saberia responder. No entanto, diria que qualquer obra pode ficar repaginada nas mãos do diretor Masaaki Yuasa. E quando digo ‘’repaginada’’, não quero dizer que ele vá transformar algo antigo nos clichês e padrões que estamos atualmente acostumados. Não. O que quero dizer, é que ele vai adaptar tal anime do seu jeito. Você consegue ver muito da obra original, mas também vai ver muito dele. Não é como se Masaaki fizesse o que ''der na telha''. Ou então, fizesse algo idêntico ao que já foi feito. Definitivamente, essa não é a praia dele. 

Considero Devilman Crybaby, uma verdadeira aula de adaptação. Você pode não gostar da história original, ou do estilo do diretor. Mas deve notar que ele cumpriu com o seu papel. Tem muitos animes que são bons, e que são muito fiéis ao mangá ou a novel, porém mal se percebe qual é o diretor por trás dele. Ou então, tiram a essência da obra original, achando que assim estão dando uma cara nova praquilo. Adaptar deveria ter um outro significado. 

Que esse anime sirva sempre de exemplo para todos os diretores que querem fazer um trabalho bem feito. Saber mesclar suas características com as de outrem, é um equilíbrio que exige cuidado e estudo. Há coisas que não combinam. Não há química. Porém, não é o caso de Devilman Crybaby.























Akira Fudo é informada por seu melhor amigo, Ryo Asuka, que uma antiga raça de demônios voltou a tirar o mundo dos humanos. Acreditando que a única maneira de derrotar os demônios é incorporar seus poderes, Ryo sugere a Akira que ele se unisse com um demônio. Sucedendo ao fazê-lo, Akira transforma-se em Devilman, possuindo os poderes de um demônio, mas mantendo a alma de um ser humano.

Devilman Crybaby é licenciado pela Netflix, e é fruto do estúdio Science Saru. Como dito, foi dirigido pelo Masaaki Yuasa, e foi adaptado do mangá do Go Nagai de 1972-1973, intitulado: ''Devilman''.





















Vi muita gente surpresa com o fato da coragem da Netflix ter colocado um anime como esse em sua grade. Alias, muitos até chocados. Vários alegam que não gostaram do anime pela violência e o sexo contido em alguns episódios, além da mensagem dele ser 'batida e direta demais ao ponto'. Eu por outro lado, gostei do anime, e gostei também dessa reação horrorizada de algumas pessoas. Sabe por que? Ora, não seria Devilman, se não causasse esse sentimento de pudor. Imagina as pessoas que leram esse mangá na década de 70. Ninguém imaginava que publicariam algo desse porte na Shounen Magazine. Pra mim, esse é o verdadeiro papel da arte: chocar. Não no sentido de porradaria, bacanal e tudo mais pra assustar os conservadores (risos). Estou falando no sentido de contar uma história onde as pessoas não esperam o que vai suceder. É provocar o leitor, tirar ele da sua zona de conforto. Independente se tem sexo ou violência.

Go Nagai é um dos autores (junto com Osamu Tezuka e Shotaro Ishinomoji) que rompeu barreiras no mangá da época, ajudando a revolucionar a industria. E sua ousadia perdura até hoje, não só nas suas obras que são vivas, mas em outros mangás relacionados. Muita coisa que existe hoje - como exemplo, piadas com erotismo - não existiria se não fosse por ele.


O grande forte de Devilman Crybaby, assim como do mangá, é criticar o comportamento humano. Para quem assistiu agora, pode ter achado um ponto bastante abatido. Mas saiba que estamos falando do precursor desse tipo de história. Se você já leu ou assistiu um anime onde fala do mesmo tema de uma forma sutil ou até então, mais elaborada e melhor, dê graças ao Devilman. Assim como rezamos todos os dias para agradecer ao pai Osamu Tezuka por ter criado os mangás, todo mundo deveria ao menos acender uma vela para o criador do espelho social, Go Nagai. Seu mangá favorito q faz ''critica foda para a sociedade'', tem muito de Devilman. 

Acredito que esse anime de 2018 não é para quem espera uma mensagem revolucionária. Mas é para provar que sua história ainda cabe nos contextos de hoje. Além de ser uma belíssima homenagem à uma das maiores obras de Go Nagai, ela exalta a importância de quebrar paradigmas e expectativas, tendo um olhar que reflete nossos comportamentos. Sim, há um certo grau nítido de filosofia, mas a intenção não é soar cult. Pra mim, ele não quer soar profundo, ou lhe fazer se sentir culpado por ser quem é. Na verdade, é mais para mostrar o quanto somos seres frágeis, sujeitos a contaminação da maldade dos outros e de nós mesmos.






















Voltando a falar do olhar atualizado do diretor Masaaki Yuasa, uma das coisas que mais gosto nele, é a forma unica como ele trabalha. Quem já assistiu animes como The Tatami Galaxy ou Ping Pong the Animation sabe do que estou falando. Há muito dele em seus trabalhos, isto é; se nota facilmente suas características e seu estilo. Não precisaria ninguém me dizer que Devilman Crybaby é dirigido por ele, pois ao assistir, ia sacar na hora.  O jeito como os personagens tomam outras proporções, a fluides elástica como se movimentam, o modo como eles correm, sorriem, ou simplesmente se transformam numa criatura, é quase mágico. A direção é maravilhosa porque ele conversa com às cenas. Nos primeiros episódios quando a família tá lá jantando com o protagonista Akira, e a câmera se move sozinha, mostrando de fundo um quadro de jesus na ceia é hilário. Se isso não é uma boa sacada, então, eu não sei o que é.

Também gosto da linguagem utilizada no anime; de rapidez, agilidade. Além de representar toda a ansiedade dos tempos em que vivemos, traz um clima bastante dinâmico. Também gosto da linguagem sexual utilizada para esbanjar a essência dos demônios, porque de fato representa o desejo, a luxuria, e o pecado. Isso acaba que não deixando certas cenas pesadas gratuitas, pois é a característica principal dos demônios junto com a agressividade e violência. São o que eles são. E isso não necessariamente precisa levar a história em algo maior. Ela pode simplesmente existir porque tá nas características. A forma dos demônios é muito bacana também, o uso da figura animal em diversos momentos é a fantasia perfeita para a representação física dessas criaturas. Se não houvesse isso, tiraria um pouco da magia e da essência dos personagens.

A roupagem da série é simplesmente propícia, e deliciosa aos olhos. Alias, aos ouvidos também, além da qualidade técnica da animação ser disparado uma das melhores do ano *até o momento*, a trilha sonora é outro show aparte. Já se tornou cliché dizer isso, mas não custa reforçar.

Colorido e intenso. Devilman Crybaby é frenético do começo ao fim. Não há tempo para se sentir entediado ou então, desinteressado pelo próximo episódio. Cada um acaba de maneira estrondosa, que chega ser impossível não assistir um atrás do outro. Combinou perfeitamente com o estilo da Netflix. Esse anime é um verdadeiro casamento, seja de equipe, produtora, e etc. Tudo combinou. O diretor foi o mais acertado para a adaptação, a trilha sonora, absolutamente tudo. Meus episódios favoritos com certeza foram os últimos, nove e dez. Um grande soco no estômago, dificilmente esquecerei um desfecho como aqueles. Pesado, emocionante, surpreendente. Como tem que ser. 

Dito isto, não há como não colocar Devilman Crybaby como o melhor anime (até agora) de 2018. Não é uma obra-prima ou coisa parecida,  mas é um anime marcante. Seja pela condução, pela proposta ou pela homenagem. Certamente, jogou o nível lá em cima.

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