segunda-feira, 5 de março de 2018

Fullmetal Alchemist Live Action [OPINIÃO]


E depois de anos de espera – 17 para ser um pouco mais exato – finalmente podemos ver a alquimia se materializando no “mundo real”. Seja lá o que isso signifique. O fato é que logo no primeiro pôster de anúncio do live action, os olhos de muitas pessoas se encheram de lágrimas, alguns corações começaram a pulsar mais rápido e algumas mentes se fecharam em relutância de aceitar tal coisa.

Criado pela mangaká Hiromu Arakawa, Fullmetal Alchemist alcançou enorme sucesso não somente no Japão, mas em todo o mundo, sendo inclusive – na minha não tão humilde opinião – uma das melhores obras já feitas, por sua complexidade, profundidade, comédia e drama, trabalhados com primazia em um ambiente tão adverso à realidade, mas ao mesmo tempo tão próximo dela.

É popularmente dito que o jornalismo deve ser imparcial. Felizmente eu não sou jornalista, pois se tem uma coisa que eu não gosto de ser é imparcial; tampouco eu me daria bem em ser juiz. Já comecei com muito drama, né? Eu sei. Então vamos ao que interessa.

Olha essa linda demonstração de afinidade e amor entre Hughes e Gracia.

Para os que ainda não conhecem a história, podem começar assistindo os 64 episódios e/ou lendo os 27 volumes do mangá. Ou então, se contentar com meu pequeno e tosco resumo que começa logo após este ponto final.

Os irmãos Edward e Alphonse Elric partem em uma busca incerta atrás da pedra filosofal para tentar recuperar seus corpos. Consequência de terem quebreado o tabu da alquimia, ao realizarem a alquimia humana tentando reviver sua mãe. Alphonse perdeu seu corpo todo, teve a alma fixada por seu irmão em uma enorme armadura e agora vive todos os dias de sua vida sem sentir fome, sede, sono ou qualquer outra sensação humana. Enquanto o seu irmão mais velho Edward, que perdeu uma perna e um braço, agora vive com a angústia e o fardo de ser o culpado pela desgraça de seu irmão.

O filme começa acertando, e acertando muito bem. A caracterização e figurino dos personagens é praticamente perfeita. Quase todos eles são facilmente identificados por qualquer fã ao primeiro olhar – com exceção da Winry que inexplicavelmente é a única que não tem o cabelo da cor original. É digna de uma menção a caracterização de Maes Hughes, protagonizado por Ryuta Sato, por sua marcante participação na trama original. O cenário também não deixou nada a desejar, já que o vilarejo de Volterra na Itália é a personificação do ambiente original.

Esse Al ficou lindo demais!

Ao contrário do que muito se falou, o CGI não foi decepcionante – apesar  de que em alguns momentos poderia ter sido melhor. A armadura de Alphonse estava simplesmente linda, desde os seus movimentos até a sua interação com os personagens humanos em cena. Em uma realidade onde coisas se materializam e cenários são destruídos por quimeras de pedra, até que ficou muito bom. Vale ressaltar a cena, logo no início, quando eles fazem a transmutação humana e também a idealização do “ser branco” que guarda A Porta.

A atuação dos personagens é caricata, do jeito que já estamos acostumados com a atuação oriental. O que não é ruim. Aliás, me agrada bastante. Sem medo de reproduzir os bordões e trejeitos do mangá/anime. Particularmente, achei o Gluttony simplesmente demais – até quando ele se transforma e sai correndo todo desajeitado atrás das pessoas – e agradeci por terem usado um ator ao invés de um CGI. Porém, o Envy parecia incompleto e deslocado o filme todo, como se estivesse ali apenas para cumprir uma cota de personagens.

Não custava nada terem colocado aquele barulho característico que faz toda vez que o Edward junta as mãos, né?

Aliás, o filme desaponta ao eliminar tantos personagens interessantes e importantes, utilizando de alguns como uma muleta para as ações que deveriam ser de outros. Entretanto, isso já era esperado, levando em conta de que eles tinham um pouco mais de duas horas para avançar o máximo possível. Mas confesso que ao fim, isso não me incomodou tanto.

O que me incomodou foi a falta de profundidade em tudo. Desde o início não fica claro qual o rumo ou gênero eles vão seguir, levando em consideração que era possível mais de uma abordagem. Somos apresentados a vislumbres de cenas trágicas sem base alguma de drama, como se forçassem você a ter uma emoção, sem entender o motivo de sentir aquilo. Os que já assistiram e amam a obra, facilmente conseguem se emocionar em alguns pontos, mas isso se deve a bagagem emocional que já carregam, enquanto que uma pessoa que está vendo pela primeira vez não consegue derramar uma lágrima sequer mesmo NAQUELA PARTE!!! – que não deve ser nomeada.

Não há fortes vínculos entre os personagens! Simplesmente não há. O único vínculo trabalhado, de forma bem rasa, é o dos irmãos Elric e da Winry. Eles simplesmente esquecem de que os dramas secundários são o motivo de que tanta gente acabou se apaixonando e sofrendo a cada cena enquanto assistia ou lia. É tão parte da identidade quanto o figurino e os efeitos especiais. Me doeu o coração ver o coronel Hughes e o Mustang conversando como se fossem colegas sem a menor afinidade, como se estivessem se falando pela primeira vez na vida.

Tem certeza que esses dois se conhecem?

O conceito da alquimia também foi negligenciado. O explicaram rapidamente como se o único motivo de o terem feito, fosse para explicar porque diabos havia tantas coisas sendo destruídas e surgindo do nada em incontáveis momentos. Não houve profundidade nos mistérios, na simbologia e nem no ocultismo.

Talvez, a parte mais decepcionante não sejam os furos no roteiro, ou a ausência de personagens, mas sim a falta de foco. Tanto em definir para qual público o filme foi feito, ou se predominaria o drama, a comédia, a aventura ou os três.

Mas confesso que fui surpreendido. Pois, surgiu a esperança – em uma cena pós créditos, por isso não deixem de avançar até o fim – de uma continuação. A esperança de ver muito mais daquele universo que eu tanto li e assisti. Que eu tanto imaginei. Não dá para dizer que a essência de Fullmetal Alchemist foi colocada de lado, pois, mesmo sendo esquecida em alguns pontos, predomina na maioria dos detalhes servindo de deleite aos olhos de quem já conhece.

No fim, eu senti uma mistura de comoção e esperança. Talvez porque eu tenha uma enorme paixão pela obra e seja emotivo e esperançoso demais com o que eu gosto. Ou talvez porque eu tenha entendido e aceitado que não há tanto sentido em criticar e comparar adaptações com as obras originais. É sensacional ver o que você ama ganhar vida. Mas a obra original nunca vai ser atingida. Ela vai permanecer lá no seu lugar alcançado por direito, aguardando aqueles que querem ter uma experiência única e mágica, e, portanto, se uma representação em uma plataforma de fácil acesso puder instigar isso, então ela já cumpriu o seu dever.

E vem mais por ai!


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