Nave Bebop: Minha Carta de Amor para Cowboy Bebop

11 outubro 2026

Minha Carta de Amor para Cowboy Bebop

 Esse post só demorou 14 anos pra sair (risos).

Desde que criei esse blog em 2013, eu nunca... repito... NUNCA... fiz um post completo sobre o anime que leva como referência o nome dessa humilde casa, ou o melhor dizendo: nave. 

Claro que já mencionei Cowboy Bebop no blog diversas vezes, já fiz post inteiro sobre a trilha sonora (se não me engano), comentei jogo, comentei até a bomba que foi o live action, fiz um bem básico também sobre as caracteristicas e referências, mas nunca sobre o anime, de forma um pouco mais aprofundada, que é o ouro da coisa. O tempo foi passando e algumas pessoas me cobraram esse post, mas eu sempre deixei pra depois.

AGORA CHEGA DE ESPERAR, carai!!! (Pode rir, eu deixo kkkkk)

Sim, vou fazer esse post depois de tantos anos, pra fazer as pazes comigo mesma e com você, leitor antigo que por ventura pode voltar a entrar nessa nave pra matar a saudade de alguma coisa. Mesmo que já existam o dobro de milhares de conteúdos excelentes por internet afora e que ninguém vá ler esse post (cá entre nós, quem é que lê alguma coisa hoje em dia?), nesse momento sinto que preciso dessa redenção.

Este não será o melhor post da minha vida, muito menos a melhor análise sobre Cowboy Bebop, mas pode ter certeza que ele saiu do meu coração. É a minha ''fan letter''.


Vamos ao que interessa. Eu revi o anime todo, pra refrescar a memória, dessa vez dublado em português, que alias, achei excelente. Não poderia esperar menos de gente de peso da nossa dublagem brazuca, entre eles Guilherme Briggs, fã de carteirinha da obra.

Se você que está lendo isso, nunca assistiu Cowboy Bebop, pare esse post e vá assistir, porque este texto estará cheio de spoilers. Ou antes, clique aqui e leia o guia básico que fiz em 2013, que dá um apanhado geral. A única coisa que mudaria daquele post foi que eu falei que o melhor episódio é o 20 e revendo percebi que o 20 não é nem de perto o melhor (risos). Enfim, vá lá se você não conhece nada da obra, assista o anime ou reveja e depois volte aqui.


Há um mistério na nave. Algo se move invisível aos olhos nus, talvez uma criatura espacial, um alienígena, um rato... o silêncio, o tédio, a falta de grana ou até mesmo a morte, espreita pelos cantos, esperando uma única distração para atacar. Esse é o episódio 11. Nele, não vemos tiroteios pelo espaço ou uma construção de mundo ou personagem, é apenas um episódio quase silencioso, com todo mundo trancado na nave bebop, entediado, convivendo normalmente, num ritmo mais lento.

A moral do episódio é: ''nunca esqueça nada dentro da geladeira''. Não que Cowboy Bebop seja um anime moralista, longe disso. Mas a mensagem é bem clara: tudo o que a gente guarda a ''sete chaves'' escondido, lá no sótão das nossas almas, um dia, desprevinidamente, irá nos atacar. Não importa quanto tempo passe, não importa o quão bem amarrado e escondido esteja. E cada pessoa vai lidar de uma forma, (como é o caso do Jet que age de um jeito mais racional, a Faye de forma mais lamentosa, e a Ed em forma de diversão). Aceitar que ''guardamos esqueletos no armário'' ou ''sujeira pra debaixo do tapete'' é o único caminho pra encararmos o que esquecemos de lidar com mais conciência.

Como é o caso do Spike. Se pegarmos pra analisar a história dele, o primeiro episódio é tão espetacular como o último. Alias, é o primeiro episódio que fecha a história, e não o último de número 26. Nele, a gente vê o Spike observando a própria história em terceira pessoa. É como se a vida estivesse mostrando a ele (na única linguagem possível do unverso que é de sincronicidades) o destino de quem escolhe fugir o tempo todo. Chega um ponto em que não dá mais. Spike mesmo chega a dizer isso para a mulher que cruza no caminho dele.

É por isso que o último episódio tem o seu peso. Porque ao longo da série, vemos um Spike cada vez mais consicente de que mesmo que ele consiga reviver o passado dele com Julia, os dois não tem pra onde fugir mais. Não aceitar que as coisas tem um fim, é o que mata Spike. E ele tinha plena consciência disso.


Um ponto interessante que eu gosto em Cowboy Bebop é que até o cachorro enriquece a história. Alias, ele é o primeiro integrante a se juntar a Spike e Jet, antes mesmo de Ed e Faye. Ein, como é chamado (uma abreviação de Einstein provavelmente), é um cãozinho super inteligente quando está com as pessoas certas. Ein é modificado em laboratório, mas acaba parando na mão de um bandido, que está esperando lucrar com a venda dele. Spike nem gosta de animais e nem de crianças (mas ao longo de episódios ele acaba mudando de ideia), Ein sente que estar com Spike é seguro e ao longo da história vêmos algumas demonstrações da inteligencia dele, principalmente quando está com a Ed. Alias, é o Ein que late para a geladeira no episódio 11, indicando que tinha algum monstro ali logo no começo (mas Spike e Faye acaba achando que era só um rato, hahaha).

Enfim. Eu adoro esse fato, de que o cachorro não é um mero enfeite ali. Mas é um personagem vivo, que participa da história com carisma e personalidade também, como um humano.


Falando nisso, já pego um gancho pra puxar outro tema abordado em Cowboy Bebop: o capitalismo desenfreado. O próprio Ein é visto apenas como forma de lucro, e não como um bichinho de estimação (mas isso muda quando ele vai parar na mão do Spike, que mesmo fudido de grana, acaba ficando com o Ein, abrindo mão de pegar a recompensa do cara que tava querendo vender ele). E assim, o diretor Watanabe vai pincelando aquele universo em que os personagens estão inseridos. Um universo decadente, com a corrupção sendo percebida de todos os lados e ângulos. Ambientação digna de um faroeste mesmo. Um faroeste moderno, que apesar de tecnologias incriveis, o ser humano continua podre e ganancioso por dentro. Não importa o quanto a humanidade explore fora da Terra, o que precisa ser visto mesmo, é deixado de lado pela busca desenfreada de dinheiro, um buraco sem fundo dentro da alma, que nunca vai se deixar satisfeito, e assim a humanidade vai destruindo tudo o que toca, deixando rastros de violência por onde passa.

Essa construção de mundo é magnifíca porque a tripulação bebop é um contraponto praquele universo. Eles não são caçadores de recompensa por opção, mas sim porque isso é tudo o que os resta, não há escolha, se quiser comer um prato de comida. E mesmo assim, eles ainda vivem na miséria. E em diversos episódios veremos eles falharem na missão, porque o sistema extremamente competitivo é feito pra eles falharem. 

O melhor episódio que ilustra tudo isso que estou dizendo é o de número 22 (olha aí as coincidencias da vida, número maldito). Nele vemos Spike tentando capturar um homem bomba e no final só descobrimos que ele só fazia o que fazia porque estava cansado das grandes corporações construindo prédios cada vez mais gigantescos, o sistema colonizando planetas em busca de mais lucro e assim vai. Ou seja, quem busca destruir o sistema com as armas que tem, se torna a caça. Fica bem claro isso. Enfim, é um episódio que toca nessa ferida mais abertamente, ao contrário dos outros, que fica mais como pano de fundo para outras tramas. É um bom episódio e o melhor de tudo é que é um episódio extramamente divertido apesar de algo sério sendo explorado, por causa da rivalidade do Spike com o cowboy Andy, uma versão bem caricata do próprio Spike. 


Outra nuance presente em Cowboy Bebop é a solidão. Jet foi abandonado por Alisa repentinamente, Faye foi abandonada a própria sorte por ela mesma no passado (sem muita pista sobre quem ela foi ou porquê foi hibernada, apesar que depois a gente descobre as motivações) e depois abandonada pelo cara que teve um romance. Já a criança Ed (não sabemos se é menino ou menina, então me refiro a ela como criança), foi abandonada pelo pai cabeça de vento, que em apenas um minuto se esquece que é pai ao colocar o trabalho acima de tudo. Alias, o episódio que fornece algumas respostas sobre a Ed, de onde ela veio, é chocante. Fiquei com o coração apertado. E o Spike nem preciso dizer nada.

Todos eles estão lidando com a solidão da forma como podem. Juntos, eles acabam se tornando uma família. Mas não essas dos comerciais de margarina. Uma família que pega no pé, grita, faz piada e que a qualquer momento pode se despedaçar pela fragilidade emocional não resolvida de alguém. Como é o caso da Faye, que vai embora sem dizer nada pra ninguém várias vezes. Com medo de ser rejeitada, ela mesma rejeita estar com eles antes, preferindo abandonar tudo e procurar por respostas do passado.

Lidar com esse sentimento de solidão e também de rejeição, torna os personagens frágeis e propícios a caírem na podridão e tentações do mundo. A própria Faye cai nessa, entrando para uma seita no episódio 23, na busca por sentido existencial. Afinal, existe maior solidão do que ser abandonada pela própria vida numa existencia sem respostas? Essa é a mais difícil de todas as solidões e a mais filosófica. E até isso, Cowboy Bebop vai abordar bem. 


Bom, acho que era tudo o que tinha pra dizer. Este é um anime que fica melhor com o tempo e maturidade e revendo ele nos dias de hoje, consigo entender e me identificar bem mais. Antes de terminar, quero deixar registrado aqui os melhores episódios na minha opinião atual, baseado num questionário que eu mesma inventei (risos).

Episódio mais engraçado?

Com certeza é o 17, onde a Ed protagoniza junto com o Ein, dando cogumelos estragados pra todo mundo (hahaha).

Episódio que envelheceu bem?

O anime no geral envelheceu como vinho, mas o episódio 4 conversa mais com os dilemas da nossa realidade atual, ao meu ver. Nele a gente vê uma chefona de uma organização que se declara ambientalista. Ao longo do episódio, vemos que ela é corrupta até os ossos, controlando até o governo e a polícia, livrando a si mesma de sofrer as consequencias de suas más ações, como qualquer pessoa. No entanto, ela acaba morta pelo próprio vírus que ela ajudou a criar. Além disso, ela também fazia experimentos com humanos, transformando-os em macacos, numa espécie de reversão da evolução. Qualquer semelhança com os políticos que a gente tem pelo mundo é mera coincidência, né? O emburrecimento coletivo, a sede por poder, o desprezo pela natureza, o vírus (a pandemia que passamos), enfim, tudo isso, é muito atual. 

O episódio 9 também é ótimo nesse sentido, quase que prevendo a inteligência artificial na nossa realidade. O 18 mostra a faye viciada em apostas, se a ela fosse brasileira estaria apostando nos tigrinhos da vida com certeza (risos). #nãoapostem

Episódio mais assustador?

Cowboy Bebop no geral não é um anime pra ter medo, mas o epi 20 que se passa no circo com aquele assassino aparentemente indestrutível chamado "Pierrot Maluco", é o que mais dá medo. Não dá pra saber pra onde a história vai. 

Episódio mais triste?

Com certeza é o último. Ver o Spike escolher a morte do que o desapego ao passado dele, é de chorar.

Episódio com melhor Ação?

Eu gosto bastante do 16 nesse sentido, onde é contado mais um pedaço do passado do Jet, que ele perdeu o braço quando estava na guerra. É um dos que mais tem o estilo Noir também. Bons tiroteios e lutas espaciais, é um episódio que foca bastante nisso.

Episódio mais estiloso?

Não tenho dúvidas de que é o 7, o da Heavy Metal Queen. É um episódio bem discontraído e sintetiza a música como um elemento importante para o anime.
Embora não seja o que tem a melhor trilha sonora (pra mim é o 24), é o que tem mais estilo.

Melhor episódio de todos?

Difícil dizer, mas o 5 me pegou mais. Nele vemos alguns fantasmas do passado do Spike. Ótimos diálogos, Spike como um anjo caído, vivendo o pesadelo que se tornou seu sonho, se sentindo mais morto do que vivo. Se não é o melhor episódio é um dos melhores, sem dúvida.



Então, é isso. Este não é o melhor post sobre Cowboy Bebop, mas é minha carta de amor a ele. Esse anime marcou minha vida de diversas formas, seja pelos temas abordados, seja pelo estilo da narrativa humanizada, pelo carisma dos personagens, pela construção de mundo, pela trilha sonora impecável e por tudo que o torna único, clássico e incomparável. 

Fica minha gratidão ao diretor Shinichiro Watanabe e ao estúdio Sunrise por essa obra prima da animação japonesa. Espero que as novas gerações conheçam e continuem assistindo essa obra espetacular.

Espero também quem sabe voltar aqui no futuro e falar que revi de novo e acrescentar um novo olhar sobre o anime, outros pontos que ficaram de fora dessa leva. 

Obrigada a você que chegou até aqui e até a próxima!

See you in space, cowboy...

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