quarta-feira, 26 de julho de 2017

Kanashimi no Belladonna: Psicodélico, Sensual e Feminista [+18]


Clássico indiscutível da animação japonesa lançada nos anos 70, revela o que é ser mulher ainda nos dias de hoje. Atenção que o post é recomendado para maiores de 18 anos, não contém imagens fortes, mas podem trazer certos desconfortos.

É impossível não se sentir enfeitiçada não só pela arte do anime que é simplesmente magnífica, mas também pela história que é de arrepiar. Kanashimi no Belladona é um drama erótico realizado e escrito por Eiichi Yamamoto. Se trata da terceira parte da trilogia de filmes eróticos Animerama, produzida pelo estúdio Mushi Production (quando estava falindo) durante a década de 1970, mas só foi estrear no Japão mesmo em junho de 1973. A versão remasterizada chegou nos Estados Unidos e no Canadá em Maio de 2014 (ao que tudo indica), e foi considerada por muitos um clássico cult. Na época em que foi feito em seu país de origem, ninguém deu bola; tanto porque foi um filme feito com baixo orçamento, como também pelo conteúdo ''pesado'' em que apresentava. Por mais que não se trate de uma obra explicitamente sexual, o longa não é recomendado para jovens abaixo de 18 anos, pois através do psicodelismo a obra flerta com o erotismo, de forma reflexiva - o que de fato é de se espantar qualquer audiência. 

Ainda bem que os tempos mudam. Uma pérola desta tinha que ser descoberta e apreciada como deveria, da forma correta.    


Kanashimi no Belladonna ou Belladona of Sadness como preferir, é uma história inspirada no conto do francês Jules Michelet, intitulado ''La Sorcière'', que poderia ser traduzido como ''A bruxa''. Essa obra foi publicada pelo filósofo e historiador francês em 1862, tendo como base uma visão romantizada da bruxa. Ao contrário dos seus trabalhos anteriores, onde definia a feitiçaria como a volta da orgia pagã, nesse romance a bruxaria é vista com outros olhos, como a 'revolta popular contra os terrores da idade média'. E isso ficou bem em evidência na adaptação animada japonesa, onde o clímax e crítica da obra toca forte nessa questão da mulher ser subjugada como a amaldiçoada/filha do capiroto. O feminismo tem um papel importante no filme, uma vez que a obra é moldada para apresentar como a mulher não tem voz em meio a uma sociedade baseada em religião, e comportamentos totalmente ultrapassados. É um filme chocante, pois ainda hoje, em meio a toda a modernidade em que vivemos, existam pensamentos desumanos da idade da pedra que resistem ao tempo como estes contados no filme.


Kanashimi no Belladonna parece uma história linda de amor. Jean e Jeanne demonstra ser o casal perfeito. Mas tudo muda quando Jeanne é brutalmente estuprada em um ritual legalmente sancionado ali naquela sociedade. Depois disso Jean se distancia de Jeanne cada vez mais, enquanto ela está sendo atormentada pelo diabo, que inclusive é representado em forma de pênis, e cada vez que ela é maltratada pelas pessoas, ele cresce. Atenção a partir daqui, até o fim desse parágrafo há spoilers fortes. Se você se incomoda com isso, pule essa parte do texto. Jeanne como foi acostumada a creditar naquela sociedade não se rebela contra àquela gente que quer espancá-la por acreditar que ela seja uma amaldiçoada. Porém, isso chega a acontecer depois de não aguentar mais tanto sofrimento e rejeição.  Ela acaba aceitando o acordo com o diabo. No entanto, o que parecia uma atitude errada , acaba sendo a escolha mais certa possível. Depois de aceitar o  acordo com o pênis satanás (pode rir se quiser, eu deixo), Jeanne acaba administrando orgias medicinais para os camponeses e vive em um reino de beleza e fantasias loucas. Logo, ela descobre que não ouvir ao tinhoso, era na verdade, uma uma mentira contada pela comunidade para manter as damas e os camponeses em desgraça. Ela então renasce como uma bruxa poderosa, destemida. Só que a sociedade acaba ganhando, usando seu antigo amor Jean para capturá-la. Jeanne acaba sendo crucificada e queimada, e Jean morre depois de remorso. No entanto, o que poderia ser um filme triste, acaba que deixando uma mensagem legal no final ao mostrar que a morte de Jeanne encorajou às mulheres à provocar a Revolução Francesa. Portanto, a mensagem que fica é que é preciso ir de desencontro com os valores tradicionais, diminuindo assim o feudalismo existente no coletivo.

É um poster mais lindo que o outro
Pra quem quer ver uma animação fluída, ou uma história grotesca, cheia de ação, sanguinolência e coisas do tipo, esqueça esse filme. Não é uma obra como A kite. Entretanto, para quem gosta de mangás como Kokoro no Kanashimi, onde a arte muitas vezes disformes e história reflexiva usam de elementos pesados como estupro para contar algo maior, certamente vai entender e apreciar o filme como se deve.


Como havia dito brevemente, Kanashimi no Belladona não tem uma boa animação - tecnicamente falando. Muitas cenas são reproduzidas com imagens estáticas, a maioria das falas vem de personagens com bocas fechadas/paradas, as cores são pintadas quase como se fosse à tinta, os poucos movimentos que possui, são usadas aos poucos em cada cena. À princípio pode até soar como um musical, visto as incessantes músicas - que por sinal são lindas, me lembrou até a banda Secos e Molhados pela delicadeza e psicodelismo - mas eu prefiro encarar mais como uma peça teatral. De fato a trilha sonora tem o seu papel importantíssimo ali, porém, o seu lado dramático pra mim, mais a narrativa, me deram uma visão mais próxima de estar assistindo à um concerto encenado com luzes e sombras. Portanto, o seu lado musical é apenas uma característica que credencia o seu conceito teatral. Não é o fim, mas é o meio. Então, a sensação que se tem é a de estar assistindo a um verdadeiro espetáculo. Gosto muito dessa linguagem, porque combina com a história grandiosa que possui.

Sei que parece um pouco contraditório dizer isso, sendo que algumas características apontam em outra direção, mas é justamente essa a sensação que tive, e acho que isso genial. O teatro é mais do que figuras de linguagens como monólogos e expressões corporais. O teatro é também uma escola de choro e riso, uma tribuna livre onde os homens podem colocar em evidência e explicar comportamentos velhos ou equivocados, com exemplos vivos, personagens fascinantes, e sentimentos arrebatadores. E isso, esse filme tem de sobra, e é o que mais sabe fazer.




Mesmo que Kanashimi no Belladonna use de poucos recursos, o que ele faz aqui é grandioso. Cada frame poderia muito bem servir como quadro para pendurar na parede de qualquer casa, isso porque o filme nos dá uma sensação de estar assistindo à uma pintura animada. Outro ponto positivo é o modo como um objeto se transforma em outro; a imaginação se fundindo com a realidade, e o que vemos é em grande parte um erotismo psicodélico feito com muito afinco.  Porém, se visto com o contexto da história, tudo se torna muito mais difuso em significados. 

Enfim, esse filme é um dos meus favoritos da animação japonesa. Considero desafiador, atemporal. Obra-prima. Eu espero que você que está lendo isso se sinta motivado a assistir, porque tenho certeza, que se você tem a mente aberta para algo ousadamente artístico, Kanashimi no Belladonna vai mudar sua vida.  Assim como mudou a minha.


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