Ponyo (2008) - Uma Amizade que Veio do Mar

A cada filme assistido do Miyazaki uma adulta estressada no mundo sorri.


Já não deve ser surpresa para ninguém o quanto gosto do estúdio Ghibli, e o quanto os filmes do Miyazaki me fascinam. Ainda não assisti um único filme sequer que tenha visto e achado bobinho. Sim, você não leu errado. Por mais que os filmes sejam simples e delicados, aparentando nada demais, sempre encontro algo nele. Algo que só Miyazaki poderia criar. 

Gake no Ue no Ponyo ou Ponyo Uma Amizade que Veio do Mar (título brasileiro), conta a história de um garotinho de cinco anos chamado Sosuke. Um dia ele vai brincar na beira do mar e encontra um peixinho dourado, que acaba a apelidando de Ponyo. O garoto fica tão fascinado com o peixe que acaba prometendo protegê-la para sempre. Aos poucos o filme vai brincando com a ficção e realidade, alternando sempre um ao outro, até que no fim, os dois estão completamente sincronizados. 

É bem visível que Miyazaki se inspirou no conto da Princesa Sereia de Hans Christian Andersen, escritor e poeta de histórias infantis. Foi ele quem criou grande parte das histórias que aprendemos na infância como O Patinho Feio, O Soldadinho de Chumbo, A Caixinhas de Surpresas, Os Sapatos Vermelhos, A Rainha do Gelo e muitos outros, incluindo claro, A Princesa Sereia.  Dentre muitas histórias de contos de fadas que publicou em 1835 a 1872, o humor nórdico se aliou à uma bonomia sorridente, a base constituída por contos populares e ironias dirigidas aos contemporâneos foram características chave para dar luz aos seus contos. 

A lenda japonesa Urashima Taro, também teve certa influencia na história de Ponyo. Segundo a lenda,   Urashima Taro era um pescador japonês que um dia salvou uma tartaruga que estava sendo maltratada na praia por alguns rapazes. Tarō a salvou dos meninos e retornou-a ao mar. No dia seguinte, uma tartaruga enorme se aproximou dele e lhe disse que a pequena tartaruga que ele salvara era na verdade a filha do Imperador do Mar, que gostaria de vê-lo e agradecer-lhe. Ela permitiu que ele subisse em suas costas e, através de magia, fez surgir brânquias em Taro para que ele pudesse respirar debaixo d'água. Assim pôde levá-lo a uma viagem para conhecer o fundo do mar e o palácio do rei-dragão, Ryūgū-jō. Lá o pescador se encontrou com o imperador e com a sua filha, a pequena tartaruga, que agora estava transformada em uma bonita princesa. Ou seja, percebe-se que Miyazaki se inspirou mais na lenda japonesa do que no conto da Princesa Sereia, porém, ambas inspirações estão entrelaçadas de uma forma ou de outra em Ponyo.

Uma outra curiosidade e não menos importante: O nome de Sosuke é retirado no romance do herói The Gate pelo famoso romancista japonês Natsume Sōseki. E o nome do navio em que o pai de Sosuke está é Koganeimaru, uma referência à localização do Studio Ghibli em Koganei, Tokyo. O filme ainda foi indicado como Melhor Filme no Festival de Veneza na Itália, no mesmo ano de lançamento, em 2008. Mas Ponyo ganhou vários prêmios mesmo no Tokyo Anime Awards, em diversas categorias. 

Retrato de Urashima Tarō feito por Utagawa Kuniyoshi.
A Pequena Sereia desenhada por Wilhelm Pedersen 


Esse é o parque japonês Setonaikai Kokuritsu Koen onde a cidade do filme foi baseada
Ponyo possui muitas semelhanças com o filme do Totoro , desde o clima descompromissado até a inocência das crianças protagonistas. Uma outra característica semelhante - alias de muitos filmes do Miyazaki - incluindo a bruxinha Kiki, é o fato de que as tramas não aparentam ter um grande vilão. Existe sim circunstâncias que trazem o conflito para a história, fazendo com que os personagens entrem em batalha com eles mesmos, mas não existe o cara mal, o monstro. Em Ponyo o esquema é o mesmo, embora o filme nos faça acreditar que o pai da Ponyo seja o problema central, aos poucos, o filme vai distorcendo as próprias evidências, nos mostrando que o vilão é algo bem bobo. E isso só descobrimos no final. Por mais que essa característica pudesse transformar o filme em uma história infantilizada (e de certa forma podemos afirmar que é) no entanto, descobrimos que através dessa aparência bobinha existe uma mensagem adulta sendo contada.  Uma mensagem que vai muito além no que abrange sentimentalismo, mas também vai de encontro à abraçar a pessoa como ela é. De aceitar as diferenças. De conviver bem com elas, de amá-las. É uma mensagem ''tolinha''? sim! Mas quantos de nós já com pêlos na virilha se esquece de algo tão simples? Da formula do verdadeiro amor e da boa convivência?   

O que mais me tocou em todo o filme foi o fato de que essa mensagem adulta foi transmitida pela boca de uma criança, o Sosuke. Não foi da mãe do garoto, do pai ausente, da sereia, da velha, do peixe, ou de quem quer que seja. Foi uma frase pura e inocente, vinda de alguém que não entende muito bem a vida, mas que já desde cedo carrega consigo uma filosofia que é a regra básica de toda uma existência.







































Pode parecer clichê, mas eu não posso mentir. A cada filme assistido do Miyazaki fico com um sorrizinho no rosto. Isso se deve a muitos fatores. O primeiro deles sem dúvida, é o banho visual que me transbordou do começo ao fim. É impossível não ficar maravilhada com a quantidade de detalhes recheada em cada cena, e ao mesmo tempo é impossível não se espantar com a quantidade de simplicidade em meio à esses detalhes. É lindo de ver e ouvir. As cores são um show aparte. Os momentos que meus olhos mais brilharam foram nas horas que começa a tempestade, onde o azul escuro prevaleceu me dando a sensação de verdeiro perigo, e quando os feitiços embaixo da água trazia para a tela cores fortes e chamativas em meio ao azul claro. Ponyo merecia ser assistido por todo mundo só por isso. Muitos filmes do estúdio ghibli são elogiados só por ter essa caraterística, mas Ponyo dá um show. Ou o melhor: nos dá um verdadeiro banho, literalmente!

Gostei muito da narrativa de Ponyo, pois nela existe uma sutileza de atingir tantos os adultos como as crianças. Ele é especialmente mágico como tinha de ser, mas ele é também maravilhosamente humano. Sensível. Inocente. Doce. Cada pequena situação traz consigo o encanto de nos deixar muito próximos dos personagens, de nos unir facilmente através dos gestos, das palavras simples. Perdão pelo trocadilho, mas é uma verdadeira imersão. É como se você voltasse a ser criança sem deixar de ser adulto. 

Enfim, não quero tomar muito o seu tempo hoje. Por isso deixo aqui essa recomendação. Se você um dia quiser ver um filme leve, bonito visualmente, e uma história encantadora de crianças imperativas que vai tocar seu lindo coraçãozinho de tal forma, não hesite ao assistir Ponyo. Pois ele é deslumbrante em seu clima poético que com toda certeza, vai transbordar seus olhos e seu sorriso de satisfação.       

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